A construção da autoestima na neurodivergência
- Luti Christóforo

- há 1 dia
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texto de Luti Christóforo - Psicólogo
Aprender a se ver com valor é um dos maiores desafios para muitas pessoas neurodivergentes. A autoestima não se constrói apenas a partir de elogios ou conquistas. Ela se forma, sobretudo, na maneira como a pessoa foi olhada, acolhida e validada ao longo da vida. E quando a história é marcada por comparações constantes, correções repetidas e tentativas de adaptação forçada, a imagem interna tende a se fragilizar.
Desde cedo, muitos neurodivergentes crescem ouvindo que precisam melhorar, prestar mais atenção, ser mais organizados, mais sociáveis, menos intensos, menos distraídos, menos sensíveis. Mesmo quando essas orientações vêm com boa intenção, a mensagem implícita costuma ser a mesma. Do jeito que você é, não é suficiente.

A comparação se torna silenciosa, mas persistente. Irmãos, colegas, primos e amigos parecem fazer com naturalidade aquilo que para o neurodivergente exige esforço enorme. O mundo celebra rapidez, desempenho linear e facilidade social. Quem funciona fora desse padrão começa a internalizar a ideia de que está sempre atrás.
A autoestima, então, deixa de ser um sentimento espontâneo de valor e passa a depender de desempenho. Se acerto, valho. Se falho, não valho. Esse modelo é extremamente cruel, porque ninguém consegue acertar o tempo todo. E quando a autoestima depende da perfeição, ela se torna instável e frágil.
No consultório, é comum encontrar adultos neurodivergentes com trajetórias de sucesso profissional ou intelectual que, ainda assim, carregam sensação profunda de inadequação. Eles sabem racionalmente que têm qualidades, mas emocionalmente não conseguem se sentir valiosos. A comparação internalizada ao longo dos anos construiu uma narrativa negativa que insiste em dizer que ainda falta algo.
Construir autoestima na neurodivergência não significa negar dificuldades. Significa aprender a enxergar o próprio funcionamento como legítimo. Significa compreender que diferença não é sinônimo de defeito. Significa reconhecer talentos, sensibilidades e formas de perceber o mundo que muitas vezes passam despercebidas pelo olhar comum.
Esse processo envolve ressignificar a própria história. Em vez de olhar para a infância como um período de fracassos, aprender a enxergá-la como uma fase de adaptação intensa. Em vez de lembrar apenas dos erros, reconhecer o esforço que sempre esteve presente. Em vez de se comparar com padrões inalcançáveis, construir critérios internos de valor.
A autoestima saudável nasce quando a pessoa deixa de se medir pela régua do outro. Ela começa quando o indivíduo entende que não precisa funcionar como a maioria para ter dignidade. Ela amadurece quando o sujeito consegue olhar para suas limitações sem se reduzir a elas.
Na prática terapêutica, fortalecer autoestima envolve trabalhar autocompaixão, revisar crenças negativas, identificar padrões de autocrítica e desenvolver uma narrativa interna mais justa. É um processo gradual, mas possível. A cada passo, a pessoa aprende a substituir a pergunta o que há de errado comigo por o que há de verdadeiro em mim.
Aprender a se ver com valor depois de uma vida inteira de comparação exige coragem. Exige abandonar a necessidade de aprovação constante. Exige aceitar que não será possível agradar a todos. Exige reconhecer que ser diferente não diminui ninguém.
A construção da autoestima na neurodivergência é um movimento de reconciliação interna. É quando a pessoa deixa de lutar contra si mesma e começa a se respeitar. É quando a comparação perde força e a autenticidade ganha espaço.
Valor não é algo que se conquista para merecer existir. Valor é algo que já está presente.
E quando o neurodivergente aprende a enxergar isso, a autoestima deixa de ser um sonho distante e se torna uma experiência concreta de dignidade emocional.
Luti Christóforo
Psicólogo clínico
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