top of page

A dificuldade de lidar com mudanças e imprevistos

Foto do escritor: Luti Christóforo
Luti Christóforo
há 5 minutos
2 min de leitura

Por Luti Christóforo | Psicólogo


Existem pessoas que conseguem reorganizar seus planos com certa facilidade quando algo inesperado acontece. Outras, porém, experimentam uma angústia significativa diante de qualquer mudança naquilo que haviam planejado. Uma alteração de horário, um compromisso cancelado ou uma situação que foge ao esperado pode provocar irritação, ansiedade e uma sensação de perda de controle. Para quem observa de fora, pode parecer uma reação exagerada. Para quem vive essa experiência, entretanto, o sofrimento é real.


Entre pessoas neurodivergentes, essa dificuldade pode assumir características particulares. Algumas pessoas autistas encontram segurança na previsibilidade e na organização da rotina. Quando algo rompe essa estrutura, pode surgir uma sobrecarga emocional e sensorial que torna difícil reorganizar o pensamento e recuperar a tranquilidade.




Imagine um homem autista de 30 anos que organiza cuidadosamente sua semana. Ele sabe os horários dos compromissos, os caminhos que costuma percorrer e como distribuir suas atividades. Certo dia, recebe uma ligação informando que uma reunião foi antecipada e que precisará modificar toda a programação. A situação parece simples para outras pessoas, mas provoca nele uma reação intensa. Não se trata apenas de não gostar da mudança. É como se precisasse reorganizar mentalmente várias coisas ao mesmo tempo, perdendo a sensação de segurança que a rotina lhe proporcionava.


Em uma pessoa com TDAH, a experiência pode ser diferente. Imagine uma mulher de 28 anos que organiza seu dia mentalmente, mas encontra dificuldades para administrar o tempo e concluir as atividades planejadas. Quando surge um imprevisto, ela perde a sequência que havia construído, sente-se desorientada e tem dificuldade para retomar o que estava fazendo. A frustração aumenta porque já vinha tentando organizar sua rotina e interpreta a dificuldade como mais uma prova de que não consegue dar conta das próprias responsabilidades.


Esses exemplos fictícios mostram que uma mesma situação, a mudança inesperada, pode provocar sofrimentos diferentes, dependendo do funcionamento de cada pessoa. Também é importante lembrar que a dificuldade de lidar com imprevistos não é exclusiva da neurodivergência. Pessoas que enfrentam ansiedade, insegurança, experiências traumáticas ou períodos de grande instabilidade emocional também podem desenvolver uma necessidade acentuada de controle.


Na perspectiva da Psicologia Analítica, podemos compreender que a necessidade de controle muitas vezes está relacionada à tentativa de encontrar segurança diante das incertezas da vida. Quando não conseguimos tolerar aquilo que foge às nossas expectativas, podemos acabar organizando nossa existência em torno da prevenção de qualquer desconforto. O problema é que a vida nem sempre respeita nossos planos.


Desenvolver flexibilidade emocional não significa abandonar a organização, deixar de ter rotina ou simplesmente aceitar qualquer situação. Significa construir, gradualmente, recursos internos para lidar com aquilo que não conseguimos prever. É aprender que uma mudança pode ser desconfortável sem necessariamente representar uma ameaça.


Talvez uma das experiências mais importantes do autoconhecimento seja perceber que não precisamos ter controle sobre tudo para nos sentirmos seguros. Podemos nos organizar, estabelecer rotinas e criar estratégias para enfrentar nossas dificuldades, mas também precisamos aprender a lidar com aquilo que escapa às nossas mãos.


A vida nem sempre acontece como planejamos. E amadurecer emocionalmente também significa descobrir que somos capazes de encontrar novos caminhos quando o caminho original deixa de existir.


Luti Christóforo

Psicólogo clínico

CRP 08/18577

WhatsApp: (41) 99809-8887

Instagram: @luti.psicologo

 
 
bottom of page