Atraso de fala é sempre sinal de autismo? O que a ciência revela sobre o desenvolvimento da linguagem infantil
- Angelika dos Santos Scheifer

- há 22 horas
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Estudo internacional mostra que marcos de linguagem ajudam a identificar sinais precoces do autismo, mas especialistas alertam: atraso de fala, isoladamente, não fecha diagnóstico
O atraso no desenvolvimento da fala costuma ser um dos primeiros sinais a preocupar pais e mães nos primeiros anos de vida. Mas até que ponto o silêncio infantil pode indicar Transtorno do Espectro Autista (TEA)? A resposta, segundo especialistas, exige cautela, informação e avaliação qualificada.
Uma pesquisa publicada em 2025 no periódico científico Child and Adolescent Psychiatry and Mental Health analisou dados de 574 crianças com diagnóstico de autismo e concluiu que marcos específicos de linguagem, especialmente ligados à comunicação funcional e pragmática, podem ajudar a prever a gravidade dos sintomas do TEA, sobretudo quando avaliados de forma integrada e precoce. O estudo reforça que o atraso de fala é um importante sinal de alerta, mas não deve ser analisado de forma isolada.

Para a neuropsicopedagoga especialista em autismo Silvia Kelly Bosi, o principal erro das famílias é associar automaticamente atraso de fala ao diagnóstico de autismo, sem observar o conjunto do desenvolvimento. “O atraso de fala é um dos sinais mais comuns que levam os pais a procurar ajuda, mas o autismo não se define apenas pela ausência ou atraso da linguagem. O que observamos é como essa criança se comunica, se há intenção comunicativa, interação social, troca de olhares e resposta ao outro”, explica Silvia.
A especialista destaca que a ciência tem avançado ao mostrar que a linguagem deve ser analisada em camadas, e não apenas pelo número de palavras ditas. “Essa pesquisa reforça algo que já vemos na prática clínica: não é só quando a criança fala, mas como ela se comunica que faz diferença na avaliação do desenvolvimento”, completa.
Já a especialista em atraso de fala Angelika dos Santos Scheifer chama atenção para o fato de que muitas crianças apresentam atraso na linguagem por motivos que não estão ligados ao espectro autista. “Existem atrasos de fala relacionados à maturação neurológica, dificuldades articulatórias, alterações motoras, questões emocionais ou até falta de estímulos adequados. Nem todo atraso indica autismo, e esse esclarecimento é fundamental para evitar diagnósticos precipitados”, afirma.
Segundo Angelika, o estudo internacional ajuda a tranquilizar famílias ao mesmo tempo em que reforça a importância da intervenção precoce. “O atraso de fala precisa ser acompanhado, investigado e estimulado o quanto antes. Quando identificamos cedo e atuamos com fonoaudiologia e quando há necessidade acompanhamento multiprofissional, os ganhos no desenvolvimento da criança são significativos, independentemente do diagnóstico final.”
O levantamento científico também destaca que crianças diagnosticadas mais precocemente costumam apresentar atrasos mais evidentes na linguagem, o que acelera a busca por avaliação especializada, um ponto considerado positivo quando há acesso a profissionais qualificados.
Para Silvia Kelly Bosi, o recado às famílias é claro. “Pais não devem entrar em pânico, mas também não devem esperar demais. Se algo no desenvolvimento da comunicação chama atenção, o melhor caminho é buscar avaliação multidisciplinar. Informação e acompanhamento precoce fazem toda a diferença”, enfatiza.
Angelika dos Santos Scheifer
@angelika.fono
Fonoaudióloga, pós-graduada em Avaliação e Reabilitação em Motricidade Orofacial e Distúrbios de Fala e Linguagem, formação avançada em PECS, formação em laserterapia para clínica fonoaudiológica e aprimoração em ação fonoaudiológica no TEA. Produtora de conteúdo digital para promoção de saúde em fala e linguagem. Atua em atendimento clínico e em treinamento familiar para o desenvolvimento da fala infantil, com consultas presencial e online para todo o Brasil.
Silvia Kelly Bosi
@silviakrllybosi
Cientista e neuropsicopedagoga, graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional, com especializações em Autismo, Desenvolvimento Infantil, Análise do Comportamento, Neurociências e Neuroaprendizagem. Certificada internacionalmente pelo CBI of Miami em Desenvolvimento Infantil e Avaliação Comportamental. Mestranda em Atenção Precoce pela Universidad del Atlántico (Espanha) e Perita Judicial certificada pela PUC-Rio. Atua com foco em avaliação neuropsicopedagógica e intervenção nos contextos clínico e educacional.
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