Autismo além do filtro: como a romantização mascara desafios reais das famílias
- Silvia Kelly Bosi

- 23 de mar.
- 3 min de leitura
IBGE aponta 2,4 milhões de brasileiros com TEA, e especialistas alertam para a necessidade de informação responsável e suporte estruturado
A última década viu uma crescente visibilidade do autismo nas redes sociais e na cultura popular. No entanto, nem sempre essa visibilidade corresponde à realidade vivida por muitas famílias. A romantização do Transtorno do Espectro Autista (TEA) como se fosse um “superpoder” ou uma condição sempre leve e inspiradora tem gerado expectativas irreais e silenciado os desafios diários enfrentados por mães, pais e cuidadores.
Dados inéditos do Censo Demográfico 2022 do IBGE mostram que 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de autismo, o que corresponde a 1,2% da população. O levantamento, realizado pela primeira vez com informações sobre TEA, também revela que a prevalência é maior entre homens e crianças, especialmente na faixa etária de 5 a 9 anos, e que milhões estão em idade escolar, com implicações diretas para educação e acolhimento nas escolas e serviços públicos.

Para Natália Lopes, mãe atípica e fundadora do projeto Voz das Mães, a romantização pode ferir tanto quanto a ignorância. “Quando o autismo é tratado apenas como uma história bonita ou um superpoder, as dificuldades reais, como exaustão, sobrecarga emocional, crises sensoriais e terapias intensivas, acabam sendo invisibilizadas. Romantizar o TEA é negar a complexidade da vida dessas famílias”, avalia.
Essa visão simplista, alerta Natália, faz com que mães e pais sintam que não podem falar sobre cansaço, medo ou frustrações, por receio de serem julgados ou acusados de ‘não serem gratos’. “Vivemos em um contexto que espera força constante, sorriso eterno, como se amor eliminasse dificuldade. Isso machuca”, completa.
Silvia Kelly Bosi, mãe atípica de uma menina autista e neuropsicopedagoga com especialização em autismo, ressalta que informação responsável é fundamental. “Dar visibilidade ao autismo é essencial, mas precisamos falar de forma completa, incluindo as barreiras de acesso ao diagnóstico, às intervenções apropriadas, à adaptação escolar e ao suporte familiar. Simplificar demais a experiência dificulta políticas públicas e estratégias reais de acolhimento”, analisa.
Os dados do IBGE, por exemplo, ajudam a dimensionar a demanda por serviços de saúde e educação adaptados. Saber que milhões de brasileiros estão dentro do espectro, muitos deles crianças em idade escolar, é um ponto de partida para discutir adequações curriculares, formação de professores, terapias e apoio psicológico tanto para as crianças quanto para suas famílias.
É necessário reconhecer que o TEA abrange uma grande diversidade: há pessoas com grandes habilidades de comunicação e autonomia, e outras que precisam de suporte intensivo. Nenhuma dessas experiências deve ser romantizada ou minimizada. Falar com honestidade sobre desafios, incluindo comportamentos desafiadores, necessidade de rotinas estruturadas, impacto financeiro e emocional, é um passo importante para promover inclusão de fato.
“Sim, é possível construir uma rotina adaptada e afetiva. Mas é possível com suporte, estratégias, conhecimento e reconhecimento das dificuldades, não com mitos”, reforça Silvia.
Quebrar o mito da idealização não diminui o valor ou o amor das pessoas com autismo, ao contrário: fortalece a compreensão, promove acolhimento real e aponta para políticas públicas que respeitem as necessidades verdadeiras das famílias, sem filtros ou ilusões.
Natália Lopes
@natilopesrodrigues
Formada em Marketing, CEO da agência NAC, especializada em marketing de conteúdo e produção de podcasts, e fundadora do Voz das Mães, iniciativa referência em maternidade atípica no Brasil. Empreendedora, é casada há seis anos com seu sócio, com quem divide a vida e os projetos profissionais intensamente, “24 horas por dia”. Mãe do Vini e de mais dois anjinhos, Natália transformou sua vivência pessoal em propósito, unindo comunicação, acolhimento e impacto social.
Silvia Kelly Bosi
@silviakellybosi
Cientista e neuropsicopedagoga, graduada em Psicopedagogia Clínica e Institucional, com especializações em Autismo, Desenvolvimento Infantil, Análise do Comportamento, Neurociências e Neuroaprendizagem. Certificada internacionalmente pelo CBI of Miami em Desenvolvimento Infantil e Avaliação Comportamental. Mestranda em Atenção Precoce pela Universidad del Atlántico (Espanha) e Perita Judicial certificada pela PUC-Rio. Atua com foco em avaliação neuropsicopedagógica e intervenção nos contextos clínico e educacional.
Imprensa
Júlia Bozzetto
Jornalista MTB/RS 19335
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