Comunicação entre escola e família ainda é um dos principais desafios na inclusão de crianças neurodivergentes
- Sirlene Ferreira

- 23 de abr.
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por Sirlene Ferreira
A relação entre escola e família exerce um papel determinante no desenvolvimento de crianças neurodivergentes. No entanto, essa comunicação, que deveria ser uma ponte de apoio e alinhamento, ainda apresenta falhas importantes que impactam diretamente o processo de aprendizagem, socialização e bem-estar dessas crianças.
Na prática clínica e educacional, é comum observar desencontros de expectativas, ruídos na comunicação e, em muitos casos, a ausência de um diálogo estruturado. Enquanto a escola enfrenta desafios para adaptar estratégias pedagógicas e lidar com diferentes perfis comportamentais, as famílias, por sua vez, carregam dúvidas, inseguranças e, frequentemente, sentimentos de sobrecarga e falta de acolhimento.

Um dos pontos mais sensíveis dessa relação está na forma como as informações são compartilhadas. Muitas vezes, a comunicação ocorre apenas em momentos de crise, quando há queixas comportamentais ou dificuldades mais evidentes. Esse modelo reativo fragiliza a confiança e impede a construção de um acompanhamento contínuo e colaborativo. A comunicação precisa deixar de ser pontual e passar a ser processual, com trocas frequentes, objetivas e orientadas para soluções.
Outro desafio relevante é a falta de preparo de parte das instituições de ensino para compreender a neurodivergência de forma ampla. Ainda há uma tendência de interpretar comportamentos como desobediência ou falta de limite, quando, na verdade, podem estar relacionados a dificuldades sensoriais, de comunicação ou de regulação emocional. Sem esse entendimento, a comunicação com a família tende a ser imprecisa, o que pode gerar conflitos e desgaste na relação.
Por outro lado, as famílias também precisam ser incluídas como parte ativa do processo. Não se trata apenas de receber orientações, mas de participar da construção de estratégias que façam sentido dentro e fora do ambiente escolar. Cada criança possui um funcionamento único, e a família traz informações fundamentais sobre rotina, gatilhos, preferências e formas de acolhimento que podem contribuir significativamente para o trabalho pedagógico.
A ausência de alinhamento entre escola e família pode resultar em abordagens inconsistentes, o que dificulta a evolução da criança. Quando estratégias são aplicadas de forma desconectada, a criança recebe mensagens diferentes e, muitas vezes, contraditórias. Isso impacta não apenas o aprendizado, mas também a segurança emocional e a previsibilidade, aspectos essenciais para o desenvolvimento de crianças neurodivergentes.
É importante destacar que a construção dessa comunicação exige intencionalidade. Reuniões periódicas, registros claros de evolução, definição conjunta de metas e a presença de uma equipe multidisciplinar podem contribuir para um acompanhamento mais eficaz. Psicólogos, fonoaudiólogos e terapeutas ocupacionais, quando integrados à escola, ajudam a traduzir comportamentos e orientar práticas mais adequadas.
Outro ponto que precisa ser revisto é o tom dessa comunicação. Famílias não devem ser acionadas apenas para ouvir problemas. É fundamental que também sejam informadas sobre avanços, conquistas e aspectos positivos da criança. Esse equilíbrio fortalece o vínculo, gera confiança e contribui para um olhar mais completo sobre o desenvolvimento.
Falar sobre comunicação entre escola e família é, antes de tudo, falar sobre corresponsabilidade. Nenhuma instituição, isoladamente, consegue atender plenamente às necessidades de uma criança neurodivergente. O desenvolvimento acontece na interseção entre os diferentes ambientes em que ela está inserida.
Avançar nesse diálogo é um passo necessário para uma inclusão mais efetiva. Quando escola e família se escutam, se respeitam e trabalham de forma alinhada, criam-se condições reais para que a criança desenvolva suas potencialidades, com mais segurança, autonomia e pertencimento.
Sirlene Ferreira – psicóloga clínica – CRP 06 64773 – Com 25 anos de experiência, é graduada pela Unicapital, pós-graduada em Psicanálise em Saúde pelo Hospital Israelita Albert Einstein e possui MBA em Gestão de Pessoas pela FGV. Mãe de um menino autista, alia vivência pessoal e conhecimento técnico em sua atuação. É proprietária e psicóloga da Fundação Conecta ABA, clínica especializada em autismo e desenvolvimento infantil, onde aplica os conceitos da psicanálise e da análise comportamental. Além da prática clínica, presta consultoria em gestão de pessoas, treinamentos e palestras para médias e grandes empresas.



