top of page

Educação financeira também precisa ser inclusiva

  • Foto do escritor: Olívia Resende
    Olívia Resende
  • há 1 dia
  • 4 min de leitura

Por Olívia Resende



Quando falamos sobre inclusão, costumamos pensar em adaptações pedagógicas, acessibilidade, tecnologias assistivas e estratégias para tornar a aprendizagem mais significativa para crianças e adolescentes neurodivergentes. Mas existe uma pergunta que ainda aparece pouco nas escolas, nas famílias e até mesmo entre especialistas: essas crianças também estão aprendendo a lidar com dinheiro e a desenvolver autonomia para a vida adulta?


Essa é uma discussão que ainda engatinha. Uma revisão publicada este ano por pesquisadores da Temple University e da University of Illinois analisou quase dois mil estudos sobre neurodiversidade no ensino e chegou a uma conclusão interessante: embora exista um interesse crescente pelo tema, ainda há poucas pesquisas capazes de demonstrar, com evidências consistentes, quais práticas pedagógicas funcionam melhor para estudantes neurodivergentes. Os autores também destacam a importância de desenvolver materiais de ensino considerando a participação desses próprios estudantes, em vez de simplesmente adaptar conteúdos já existentes. O estudo analisa o ensino da computação, mas sua principal reflexão pode ser ampliada para outras áreas do conhecimento. Inclusive para a educação financeira.


Ainda sabemos muito pouco sobre como ensinar esse tema respeitando diferentes formas de aprender. E reconhecer essa lacuna talvez seja o primeiro passo para construir soluções mais inclusivas.


Inclusão não significa ensinar igual para todos


Durante muito tempo acreditamos que oferecer o mesmo conteúdo para todas as crianças era sinônimo de igualdade. Hoje entendemos que inclusão é outra coisa.

Ela começa quando reconhecemos que pessoas diferentes aprendem de maneiras diferentes. Isso vale para matemática, para leitura, para esportes e também para educação financeira.


Ensinar uma criança a lidar com dinheiro não depende apenas da idade. Depende da forma como ela organiza informações, interpreta situações do cotidiano, estabelece rotinas e constrói sua autonomia.


Cada criança neurodivergente apresenta características próprias. Algumas aprendem melhor com estímulos visuais. Outras precisam de mais tempo para consolidar conceitos. Há quem compreenda melhor por meio de experiências práticas, enquanto outras respondem positivamente à repetição ou a rotinas estruturadas.


Por isso, buscar uma metodologia única talvez seja o caminho menos produtivo.

Mais importante do que criar um "modelo para crianças neurodivergentes" é adaptar princípios já consolidados da educação financeira para que façam sentido dentro da realidade de cada estudante.


Autonomia financeira começa muito antes do primeiro salário


Quando falamos em educação financeira, muitas pessoas imaginam investimentos, planilhas ou planejamento patrimonial. Mas esse aprendizado começa muito antes.

Ele aparece quando a criança participa de pequenas decisões de compra. Quando entende que escolhas envolvem consequências, quando aprende a diferenciar desejos de necessidades, quando desenvolve paciência para esperar e quando percebe que recursos são limitados e precisam ser utilizados com consciência.


Nenhuma dessas habilidades depende exclusivamente do dinheiro.


Na verdade, elas fazem parte do desenvolvimento da autonomia.


Por isso, deixar crianças e adolescentes neurodivergentes de fora dessa aprendizagem, ainda que involuntariamente, significa restringir oportunidades importantes para a vida adulta.


Não porque todas terão o mesmo nível de independência financeira no futuro, mas porque todas têm o direito de desenvolver, dentro de suas possibilidades, competências que favoreçam sua participação na sociedade.


Ensinar também é adaptar


Existe uma ideia bastante comum de que adaptar um conteúdo significa simplificá-lo. Na educação, isso raramente é verdade. Adaptar significa encontrar diferentes caminhos para alcançar o mesmo objetivo.


No caso da educação financeira, isso pode acontecer por meio de exemplos ligados à rotina da criança, jogos, recursos visuais, histórias, atividades concretas e experiências que transformem conceitos abstratos em situações reais.


A família faz parte desse aprendizado


Ao contrário de muitas disciplinas escolares, a educação financeira não acontece apenas na sala de aula. Ela continua no supermercado, na mesada, na organização das despesas da casa, na conversa sobre consumo… Por isso, a participação da família faz toda a diferença.


Quando pais e responsáveis incluem as crianças em situações compatíveis com sua idade e seu nível de autonomia, criam oportunidades constantes de aprendizagem. São experiências simples, mas que ajudam a construir segurança para tomar decisões no futuro. Mais do que ensinar a economizar, elas ensinam a compreender o valor das escolhas.


Ainda há muito espaço para avançar


Grande parte das discussões sobre neurodivergência é conduzida por profissionais da saúde e da educação, o que é absolutamente compreensível diante da importância desses campos.


Ao mesmo tempo, ainda falamos pouco sobre temas como autonomia financeira, comportamento econômico e preparação para a vida adulta. Esse vazio não significa que essas questões sejam menos importantes. Significa apenas que ainda temos muito a pesquisar, discutir e construir.


Enquanto novas evidências científicas surgem, acredito que o melhor caminho seja utilizar aquilo que já sabemos sobre desenvolvimento infantil, educação financeira e neuroeducação para criar experiências cada vez mais inclusivas.


Porque a inclusão não acontece apenas quando garantimos acesso à aprendizagem.

Ela também acontece quando acreditamos que toda criança, independentemente da forma como aprende, merece desenvolver competências que ampliem sua autonomia, sua participação social e sua capacidade de fazer escolhas ao longo da vida. E talvez essa seja uma das maiores contribuições da educação financeira: ensinar que autonomia não nasce quando a vida adulta começa.


Ela começa a ser construída, pouco a pouco, na infância.


Olívia Resende é fundadora da Germinar Educação. Olívia é economista, pedagoga, PhD em administração, especialista em finanças, economia comportamental, neuroeducação e design Instrucional. Olivia, dedica sua trajetória a transformar a aprendizagem em uma experiência significativa e envolvente para crianças e famílias.

É autora de livros infantis. Desenvolve metodologias e conteúdos que unem educação financeira, comportamento e formação socioemocional desde a infância, com foco na construção de indivíduos mais conscientes, criativos e preparados para o futuro.


Para saber mais:

bottom of page