top of page

Entre regulação, cuidado e presença: o lugar do animal na vida de pessoas neurodivergentes

  • Foto do escritor: Juliana Sato
    Juliana Sato
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

por Juliana Sato


Nem todo vínculo com um animal começa de forma planejada ou a partir de uma ideia mais idealizada de companhia. Em muitos casos, essa relação vai se construindo porque, ali, existe um tipo de encontro que acontece com menos desgaste. Para algumas pessoas, o animal se torna uma presença importante não apenas pelo afeto, mas porque a relação se estabelece de um modo mais compreensível, mais constante e menos atravessado pelas exigências que costumam aparecer em outras interações.


Para pessoas com Transtorno do Espectro Autista, TDAH e outras neurodivergências, o dia a dia pode ser mais cansativo do que aparenta para quem observa de fora. Situações que parecem simples, como acompanhar uma conversa, lidar com barulho, mudanças de rotina, ambientes muito cheios ou várias demandas ao mesmo tempo, podem exigir um esforço grande e contínuo. Nem sempre isso é visível, mas vai se acumulando. Há um desgaste em precisar se adaptar repetidamente a contextos que nem sempre respeitam o próprio tempo, o corpo e a forma como cada pessoa funciona.



É dentro desse cenário que a presença do animal pode ganhar um lugar importante. A relação não depende de acertar expressão facial, tom de voz ou tempo de resposta. Também não exige a mesma leitura constante de códigos sociais, algo que em muitas situações pode ser cansativo ou até exaustivo. Com o animal, muitas vezes existe uma forma de estar junto que passa menos pela cobrança e mais pela constância. Isso não quer dizer que seja uma relação simples ou rasa, mas que ela pode oferecer uma experiência de vínculo menos atravessada por tensão.


O cuidado cotidiano também participa disso. Alimentar, acompanhar, observar mudanças, repetir pequenas rotinas e reconhecer sinais do animal são movimentos que ajudam a dar forma ao dia. Não porque resolvam tudo, nem porque transformem a rotina em algo fácil, mas porque podem oferecer continuidade e previsibilidade em meio a um cotidiano que, em muitos momentos, já é exigente demais. Para algumas pessoas, esse vínculo não entra como algo secundário na vida emocional, mas como parte daquilo que ajuda a sustentar o dia a dia.


Quando falamos de cães de serviço, essa conversa precisa ser aprofundada, porque não se trata apenas de vínculo afetivo. O cão de serviço é treinado para reconhecer sinais específicos e agir de forma concreta em situações que envolvem segurança, regulação e manejo do ambiente. Dependendo do caso, ele pode interromper um comportamento repetitivo, ajudar a pessoa a se reorganizar, criar espaço em ambientes públicos, sinalizar alterações importantes ou facilitar a saída de um lugar que se tornou difícil de sustentar. Isso significa que sua presença interfere diretamente na forma como a pessoa circula, acessa espaços e consegue permanecer em determinadas situações.


Ao mesmo tempo, seria reducionista olhar para esse animal apenas pela função que ele desempenha. A convivência constante constrói uma relação de confiança que não depende de justificativas ou negociações contínuas. O cão está presente justamente em momentos de maior vulnerabilidade, quando o ambiente pesa, quando a sobrecarga aumenta ou quando a regulação já não está sendo possível da mesma forma. Por isso, em muitos casos, o que existe ali não é apenas uma relação funcional, mas uma presença que participa do modo como aquela pessoa consegue se mover pelo mundo com mais segurança.


Na prática clínica, isso fica ainda mais evidente quando esse vínculo é ameaçado por adoecimento, envelhecimento ou morte do animal. Ao acompanhar o luto no contexto do vínculo humano-animal, torna-se claro que, para algumas pessoas neurodivergentes, a perda não pode ser compreendida apenas como a ausência de um companheiro querido. O que se rompe, muitas vezes, é também uma referência importante de organização da rotina, de regulação emocional e de sustentação da vida cotidiana.


Quando se trata de um cão de serviço, essa ruptura pode ter efeitos ainda mais amplos, porque não envolve somente a dor da separação, mas também mudanças concretas na autonomia e na capacidade de lidar com situações que antes eram manejadas com aquele apoio. A pessoa pode passar a evitar certos ambientes, sentir mais dificuldade em sair de casa, em enfrentar deslocamentos ou em permanecer em espaços que antes eram possíveis com a mediação do animal. Ainda assim, esse impacto costuma ser pouco reconhecido, como se tudo pudesse ser reduzido a uma tristeza compreensível, porém simples.


Esse é um dos pontos que mais pedem cuidado. Existe uma tendência de interpretar esse tipo de vínculo apenas como apego intenso, como se a questão fosse somente gostar muito de um animal. Essa leitura empobrece o que está realmente em jogo. O que precisa ser observado é o lugar que essa relação ocupava, o que ela ajudava a organizar, quais recursos sustentava e quais dificuldades aparecem quando ela deixa de existir.


Para profissionais da saúde, da educação e também do setor veterinário, isso exige uma escuta mais cuidadosa e menos automática. Não basta acolher a dor de forma genérica ou tratar esse sofrimento como algo menor. É importante compreender de que forma aquele animal participava da vida da pessoa, como interferia na rotina, na segurança, na regulação e na possibilidade de estar no mundo com menos sobrecarga. Quando esse olhar não acontece, o cuidado fica superficial e deixa de alcançar justamente aquilo que mais precisava ser reconhecido.


Sobre Juliana Sato

@jusatopsicologa

julianasatopsicologa.com.br


Psicóloga graduada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie de São Paulo, com pós-graduação em Distúrbios Alimentares pela Unifesp, Juliana Sato é certificada pela renomada Association for Pet Loss and Bereavement, entidade pioneira e referência em luto pet nos Estados Unidos. A especialista vem se destacando desde 2023 em consultoria e atendimento em saúde mental de profissionais do segmento pet vet, além de mentorias para empresas e líderes na construção de culturas organizacionais mais humanas, seguras e sustentáveis. Desde 2024, faz parte da diretoria da Ekôa Vet – Associação Brasileira em Prol da Saúde Mental na Medicina Veterinária. Para ajudar pessoas que buscam equilíbrio emocional e crescimento pessoal, criou o canal VibeZenCast, no qual compartilha conteúdos sobre saúde mental, autocuidado e bem-estar. Juliana também é uma das organizadoras do recém-lançado livro “Luto Pet no Contexto da Medicina Veterinária”, pela Editora Lucto, onde aborda a complexidade do assunto e debate a saúde mental no universo pet.



bottom of page