O Colapso Silencioso: a saúde mental da mãe atípica em colapso
- Andréa Fidelis

- há 4 dias
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Você sabe o que é ser uma mãe típica? Quais são suas preocupações, culpas e necessidades? Como ela lida com trabalho, vida pessoal, maternidade, casamento e autocuidado? Se você já achou essa dinâmica desafiadora na maternidade padrão, convido você a dar um passo além e refletir comigo sobre a realidade das mães atípicas.
Mãe atípica é aquela que tem filhos cuja trajetória foge do padrão dos ditos "normais". Pensa-se primeiro em TEA, mas são muitas e diferentes questões que envolvem um desenvolvimento atípico. Podem ser fatores físicos (surdez, limitações motoras, falta de membros, doenças crônicas incapacitantes) problelas neurológicos, síndromes, problemas mentais e alta habilidades, entre outros.

O desafio das mães atípicas, contudo, começa na própria estrutura do mundo: como criar um filho em uma sociedade que ainda não aceita bem quem foge do padrão social?
Quando uma família recebe o diagnóstico de uma criança ou adolescente atípico, um fenômeno histórico e social se repete: o peso do mundo recai quase inteiramente sobre os ombros das mães.
Esse esgotamento não é uma impressão subjetiva; ele é mensurado e comprovado pela ciência. As pesquisas brasileiras mostram, de forma consistente, que mães de crianças e adolescentes com desenvolvimento atípico apresentam maiores índices de estresse, sobrecarga emocional, prejuízo profissional e adoecimento psicológico.
Se olharmos para alguns estudos nacionais sobre mães atípicas, o cenário é preocupante:
Estresse elevado e sobrecarga emocional: Um estudo realizado em Pelotas (RS) com 55 mães de crianças com TEA identificou uma alta prevalência de estresse, níveis de moderados a altos de sobrecarga emocional e uma necessidade intensa e urgente de rede de apoio. Na mesma linha, uma pesquisa desenvolvida na PUCRS comparou mães com e sem estresse, concluindo que as mães estressadas apresentavam quase o dobro da percepção de sobrecarga. O estudo apontou um fator crucial: quanto menor o suporte familiar, pior a saúde emocional dessa mãe.
O isolamento e o sacrifício profissional: um estudo brasileiro revelou o tamanho da renúncia que a atipicidade impõe. Mães de crianças atítpicas frequentemente abandonam suas carreiras ou reduzem drasticamente suas jornadas de trabalho. O resultado? Isolamento social, desgaste físico e emocional contínuo, além de sentimentos frequentes de medo, culpa e sofrimento psicológico. Em grande parte dos casos estudados, a mãe se torna a cuidadora principal e quase exclusiva.
A perda da qualidade de vida: Uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) colocou em dados o que se vê no cotidiano: altos níveis de estresse psicológico, pior qualidade de vida, baixo desempenho ocupacional e severas dificuldades de autocuidado entre as mães cuidadoras de crianças atípicas, sejam elas com com deficiências físicas, mentais (genéticas e/ou neurológicas).
O risco real de adoecimento: Artigos científicos recentes sobre a maternidade atípica no Brasil apontam uma associação direta entre o estresse crônico e o desenvolvimento de quadros de ansiedade, depressão, exaustão física e até mesmo alterações cognitivas decorrentes da sobrecarga emocional. O fator de risco que mais potencializa esse sofrimento psicológico é, invariavelmente, a falta de apoio social.
Embora o Brasil ainda careça de grandes levantamentos nacionais específicos sobre as "mães atípicas", os dados demográficos oficiais nos ajudam a entender a dimensão e o contexto desse cenário. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), cerca de 18,6 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência. O próprio instituto aponta que as mulheres assumem majoritariamente o papel de cuidadoras familiares no país. Não se trata de uma simples "opção feminina", mas do fato de a mulher assumir integralmente, por falta de alternativas, o cuidado daquele ser.
Como consequência colateral desse cuidado quase que mandatório para as mães, é comum que essas mulheres sejam engolidas pelas demandas desse cuidar do outro. Essa mãe se perde completamente em uma avalanche diária e infindável de compromissos do fílho(a) atípico: são consultas médicas, psicólogos, fonoaudiólogos, sessões de estimulação precoce, pedagogos, exames e hospitais. A agenda do filho substitui a existência da mãe. Todo o resto de sua vida fica em suspenso, não há mais tempo para atender os outros filhos, não há mais tempo para gerenciar a casa, não há mais tempo para estar com o parceiro. Claro que isso acontece com um sentimento de culpa imenso, por não conseguir “dar conta” de todas as suas demandas diárias. O casamento acaba, os outros filhos se recentem, a vida pessoal fica um caos.
No aspecto profissional, o que ocorre é o adiamento forçado ou o abandono definitivo dos planos de carreira. Vão-se muitos dos sonhos e espectativas que essa, agora mãe atípica, precisa deixar de lado para seguir cuidando. Diante disso tudo, o que podemos perceber é o abandono de si própria.
O que acontece com essa mulher? Será que o colapso de sua saúde mental é uma falha individual ou é o resultado gritante da falta de uma estrutura social sólida, do amparo legal deficitário e da ausência de acolhimento familiar? O que realmente estamos
fazendo por essas mulheres e mães atípicas?
Você já parou para pensar nisso?
@psiandreafidelis



