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O impacto invisível do sono no desenvolvimento de crianças com autismo

  • Foto do escritor: Silvia Kelly Bosi
    Silvia Kelly Bosi
  • há 23 horas
  • 2 min de leitura

Dormir bem é essencial para qualquer criança. Mas, no caso de crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), a qualidade do sono ganha ainda mais relevância. Pesquisas indicam que até 80% das crianças autistas apresentam algum tipo de distúrbio do sono, desde dificuldade para adormecer até despertares frequentes durante a noite. Apesar desse índice elevado, o tema ainda recebe pouca atenção em diagnósticos e acompanhamentos clínicos.


O sono desempenha papel fundamental na plasticidade cerebral — a capacidade do cérebro de criar novas conexões e consolidar aprendizados. Em crianças com TEA, noites mal dormidas podem agravar sintomas já presentes, como dificuldades de atenção, irritabilidade, hiperatividade e atrasos no desenvolvimento da linguagem. Um estudo publicado em 2023 na Nature Reviews Neurology mostrou que a privação de sono compromete a regulação emocional e a memória em crianças neurodivergentes, impactando diretamente a evolução terapêutica.



Nos últimos anos, pesquisadores também têm investigado o papel da melatonina, hormônio que regula o ciclo do sono. Esses ensaios clínicos apontam que o uso controlado dessa substância pode ajudar parte das crianças com TEA, mas especialistas alertam que a suplementação não deve ser encarada como solução única. Estratégias não medicamentosas, como a higiene do sono, também são fundamentais: manter horários regulares, reduzir a exposição a telas antes de dormir, criar um ambiente silencioso e escuro, e incluir rituais previsíveis, como leitura ou música calma, são medidas que auxiliam no processo de adormecer.


Apesar dos avanços científicos, ainda existe uma lacuna significativa entre diagnóstico e tratamento no Brasil. Muitas famílias enfrentam longas jornadas em busca de apoio adequado e, frequentemente, os distúrbios do sono são tratados como secundários — quando, na prática, têm impacto direto no desenvolvimento cognitivo, comportamental e emocional das crianças.


O desafio é incluir a avaliação do sono como parte essencial do acompanhamento clínico de crianças com TEA. Reconhecer a importância desse aspecto invisível pode não apenas melhorar a qualidade de vida das famílias, mas também potencializar os ganhos das terapias já em andamento.


Silvia Kelly Bosi é neuropsicopedagoga, cientista da educação, especialista em desenvolvimento infantil e autismo, palestrante e CEO da Potência – Clínica de Desenvolvimento Infantil. Também é mãe atípica e defensora da inclusão como caminho para uma sociedade mais justa e inteligente.

@silviakellybosi

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