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Quando escola e família falam línguas diferentes, quem perde é a criança

  • Foto do escritor:  Isabella Saes
    Isabella Saes
  • 23 de abr.
  • 4 min de leitura

Por Isabella Saes



A inclusão de crianças neurodivergentes no Brasil avançou em muitos aspectos, mas ainda esbarra em um ponto sensível e, muitas vezes, invisível: a comunicação entre escola e família. Não é raro ver situações em que ambos os lados compartilham o mesmo objetivo: o desenvolvimento da criança, mas se posicionam como se estivessem em lados opostos.


Os números ajudam a dimensionar esse cenário. Dados recentes do IBGE indicam que cerca de 2,4 milhões de brasileiros têm diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA), o que representa aproximadamente 1,2% da população. Entre as crianças de 5 a 9 anos, a prevalência é ainda mais expressiva: estima-se que cerca de 2,6% estejam dentro do espectro, algo próximo de uma em cada 38. E esse recorte não inclui outras condições, como TDAH ou dislexia, o que amplia significativamente o número de famílias impactadas.


Diante desse contexto, a relação entre escola e família deixa de ser apenas importante, ela se torna estratégica.


Mas estratégia não se constrói apenas com troca de informações. Se constrói com qualidade de comunicação.


O problema não é falar pouco. É não escutar de verdade


Na prática, o que percebo não é a ausência de diálogo, mas a falta de escuta. Escola e família até conversam, mas nem sempre se escutam com abertura suficiente para compreender o contexto do outro.


Quando isso acontece, surgem interpretações enviesadas: um relato vira crítica, uma orientação soa como julgamento, uma preocupação é percebida como ataque. E, pouco a pouco, o que poderia ser parceria se transforma em tensão.


No caso de crianças neurodivergentes, esse cenário é ainda mais delicado. Estamos falando de crianças que, muitas vezes, já enfrentam desafios adicionais de adaptação, comunicação e pertencimento. Inserir ruídos nesse ambiente é, na prática, aumentar a carga emocional que elas precisam carregar.


Por isso, a comunicação empática deixa de ser um “diferencial” e passa a ser uma necessidade.


Comunicação empática não é concordar, é compreender


Existe uma confusão comum entre empatia e concordância. Escutar o outro com atenção não significa abrir mão do seu ponto de vista, mas sim estar disposto a compreendê-lo antes de responder.


No contexto escolar, isso implica em um movimento importante: sair da lógica de “quem está certo” para entrar na lógica de “o que essa criança precisa e como podemos, juntos, oferecer isso”.


E aqui há um ponto que costuma ser negligenciado: a criança precisa ser considerada nesse processo. Não apenas como tema das conversas, mas como sujeito delas. Sempre que possível, sua percepção, seu comportamento e suas respostas precisam ser levados em conta com respeito e sensibilidade.


Ambientes onde essa escuta não acontece tendem a gerar mais ansiedade, insegurança e sensação de inadequação. Fatores que impactam diretamente o desenvolvimento emocional e a aprendizagem.


Gerações diferentes, expectativas diferentes e o risco dos rótulos


Outro fator que intensifica os ruídos na comunicação é a diferença geracional entre educadores e responsáveis. Não estamos falando apenas de idade, mas de repertório, referências e formas de interpretar o mundo.


Enquanto algumas famílias esperam respostas rápidas e personalizadas, escolas muitas vezes operam com estruturas mais padronizadas. Enquanto educadores podem priorizar processos pedagógicos, os responsáveis podem estar mais sensíveis aos aspectos emocionais e ambos têm razão dentro de seus contextos.


O problema começa quando tentamos simplificar essas diferenças por meio de rótulos.


Classificar o outro como “exigente”, “desatento”, “ansioso” ou “rígido” antes de escutar o que está por trás daquele comportamento é uma forma rápida de encerrar o diálogo antes mesmo que ele comece.


Reconhecer nossos próprios vieses, esses filtros invisíveis que moldam como interpretamos o outro, é um dos passos mais importantes para construir uma comunicação mais saudável.


Conflito não é o problema, precisamos aprender a lidar com ele


Existe uma ideia equivocada de que relações saudáveis são aquelas sem conflito. Na prática, o conflito é inevitável, especialmente quando estamos lidando com desenvolvimento infantil, expectativas e emoções.


A diferença está em como lidamos com ele.


Quando há abertura para o diálogo, o conflito deixa de ser um ponto de ruptura e passa a ser um ponto de ajuste. Ele revela desalinhamentos que precisam ser trabalhados, não evitados.


Alguns movimentos simples fazem diferença nesse processo:


●     estabelecer canais claros e frequentes de comunicação

●     alinhar expectativas, de forma explícita, sobre comportamento, aprendizagem e desenvolvimento

●     registrar evoluções e desafios com objetividade, evitando interpretações pessoais

●     focar em soluções possíveis, em vez de reforçar problemas


Não se trata de criar uma comunicação perfeita, mas uma comunicação funcional, aquela que permite ajustes ao longo do caminho.


Presença ainda é insubstituível


Em meio a rotinas aceleradas, agendas cheias e excesso de informação, existe um elemento que continua sendo insubstituível no desenvolvimento infantil: a presença.


Presença não é apenas estar disponível, mas estar atento. É observar, escutar, perceber nuances. É construir conexão.


Para crianças neurodivergentes, essa conexão é ainda mais determinante. Ela sustenta a sensação de segurança, pertencimento e confiança, bases fundamentais para qualquer processo de aprendizagem.


No fim, comunicação não é transmitir mensagens com clareza técnica. É construir entendimento com intenção genuína.


E quando escola e família conseguem se encontrar nesse lugar, quem ganha não é a relação entre adultos, é a criança. Exatamente como deveria ser.


Mini bio da especialista

 

Isabella Saes é jornalista e especialista em comunicação.

Isabella atua como consultora para posicionamento digital, marca pessoal, treinamento de oratória e storytelling, comunicação para lideranças e já ministrou treinamentos em empresas como: Sebrae, Serasa, Vibra, Instituto Four e projetos como o Mover, que reúne lideranças de empresas como Vale, Coca-cola, havaianas, Kraft Heinz, RD Saúde, Natura, entre outras.

Isabella tem mais de 20 anos de experiência como locutora, apresentadora e repórter, e passou pelos canais Multishow, Fox, Sportv, TV Brasil e Telecine. Rádio SulAmérica Paradiso (RJ), MPB FM (RJ), Mix (SP) e Antena 1 (RJ). Isabella foi indicada, por dois anos consecutivos, ao Prêmio Radialistas, na categoria "Melhor Comunicadora".

Isabella faz mentorias e treinamentos em grupos ou individuais e é infoprodutora com cursos na Hotmart e na Doméstika, uma das mais relevantes plataformas internacionais de cursos online.


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