top of page

Sociabilidade e versatilidade das mulheres dificultam os diagnósticos de neurodivergência

  • Foto do escritor: Priscilla Tavollassi
    Priscilla Tavollassi
  • há 22 horas
  • 3 min de leitura

Por Priscilla Tavollassi, Psicóloga e Psicanalista Integrativa


A versatilidade das mulheres é geralmente definida pela capacidade de gerenciar múltiplos papéis, coordenando a vida profissional, familiar e pessoal, mas mais do que isso, mesmo em uma única área da vida, as mulheres desempenham várias tarefas ao mesmo tempo, o que exige maior concentração, alta inteligência emocional e controle.


Apesar da versatilidade, estudos apontam que apenas cerca de 35% dos cargos de alta liderança no Brasil são ocupados por mulheres, o que demonstra que os homens ainda são maioria nas empresas, principalmente na liderança. E esse tipo de estatística não é diferente quando mencionados estudos sobre diagnósticos neurodivergentes, tais como TDAH (Transtorno de Déficit de Atenção e Hiperatividade) e TEA (Transtorno do Espectro Autista), por exemplo.



Por muitos anos, os homens tiveram diagnósticos mais assertivos, enquanto as mulheres foram e ainda são diagnosticadas tardiamente. Isso acontece em primeiro lugar porque os estudos sempre foram prioritariamente realizados em homens e depois porque as mulheres, por serem mais versáteis e sociáveis, camuflam seus sintomas.


Muitas vezes é apenas na puberdade que as meninas começam a demonstrar algum tipo de sintoma, enquanto nos meninos já se manifesta na infância. Muitas vezes não há indícios de que ela possa ter algum espectro autista, seja nível 1 ou níveis mais avançados ou TDAH, até porque a hiperatividade feminina é muito menor. Os meninos se mostram mais hiperativos e impulsivos, ou no caso do autismo, muitas vezes demonstram indiferença e falta de sociabilidade.


Já as meninas, mesmo tendo alguns sintomas de hiperatividade não alcançam o nível masculino. O que normalmente se destaca nas meninas é a desatenção. As mulheres são capazes de desenvolver mecanismos de ‘camuflagem’ para esconder as dificuldades porque elas se esforçam muito para serem, inclusive, melhores que os homens, mas quando estão mais sensíveis são frequentemente rotuladas de sonhadoras, depressivas, dramáticas, sensíveis demais, intensas, entre outras características que dificultam o diagnóstico.


É quase improvável falar de Sigmund Freud sem falar sobre a histeria. Freud era um neurologista austríaco, que criou no século XIX a Psicanálise, método que investiga a mente humana por meio do inconsciente e defendia as mulheres explicando que elas não eram loucas ou descompensadas e sim, que estavam passando por algum tipo de sofrimento psíquico. Naquela época, os homens tinham questões neurológicas que podiam ser tratadas. Já as mulheres, eram consideras histéricas. A palavra histeria tem origem no grego, hystéra, que significa útero. Na Grécia antiga, acreditava-se que o útero era um órgão móvel que, ao vagar pelo corpo da mulher, causava perturbações físicas e emocionais, mas Freud comprovou que a famosa histeria não era uma doença física, orgânica e uterina, mas sim um distúrbio psíquico ligado ao inconsciente e à sexualidade reprimida. Ele explicava que sintomas físicos eram resultado dos traumas, fantasias sexuais recalcadas e memórias esquecidas.


É possível compreender que desde os séculos passados a mulher não era compreendida, estudada e reconhecida como deveria. Havia uma crença relacionada ao seu estado. O mesmo acontece com doenças relacionadas ao útero, tais como endometriose, miomas, adnomiose, que muitas vezes causam infertilidade. Essas enfermidades até pouco mais de 20 anos não eram estudas como deveriam, portanto, não eram tratadas. Assim como muitas mulheres, inclusive jovens, estão sendo mais diagnosticadas com tais enfermidades, a neurodivergência também está aumentando.  


Muitas mulheres, atualmente, são diagnosticadas incorretamente com ansiedade, depressão ou transtornos alimentares, quando na verdade, a mulher tem TDAH. Elas se esforçam ao máximo para manter a organização, se mostrarem competentes, o que esconde o transtorno, até que a sobrecarga do cotidiano que envolve trabalho e família cause um burnout, ou seja, uma estafa. No meu consultório mesmo, já identifiquei muitos pacientes com TDAH, que nunca tiveram um diagnóstico médico, assim como já encaminhei também para avaliação médica alguns pacientes que demonstravam características de TEA, e que após avaliação neuropsicológica foi possível tratar.


É fundamental que uma pessoa neurodivergente tenha sua condição revelada. Com o diagnóstico, é possível que o indivíduo trabalhe o entendimento da sua condição e, consequentemente, a aceitação para que haja redução do sofrimento e de comportamentos autodestrutivos.


 

Perfil Priscilla Tavollassi

@priscillatavollassiterapeuta


Graduada em Psicologia pela Universidade Anhembi Morumbi (CRP 06/224241). Pós-graduada em Psicanálise Integrativa e Psicossomática pelo Instituto de Psicanálise Cristina Cairo, com especialização em Psicossomática. Pós-graduanda em Altas Habilidades e Superdotação pela Faculdade Novoeste. É implementadora NR1 (norma voltada à saúde mental) realizando diagnóstico e programas de saúde mental no mercado corporativo. Acumula mais de 30 mil atendimentos ao longo dos últimos 13 anos, sempre com o propósito de auxiliar as pessoas a encontrarem seus caminhos por meio do autoconhecimento.



bottom of page