Além das limitações: quatro histórias de superação que transformam vidas
- Andréa Fidelis

- há 2 dias
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Reconheço o privilégio que é lecionar no curso de Psicologia. Da sala de aula, tenho a oportunidade ímpar de acompanhar trajetórias de superação que renovam constantemente minha fé no potencial humano. Entre tantas vivências marcantes, destaco quatro histórias de alunos e ex-alunos que enfrentaram seus obstáculos com altivez e hoje inspiram todos ao seu redor.

A primeira é a de um aluno que perdeu a visão aos oito anos. Adulto, trabalhador e apaixonado pela Psicologia, ele nunca encarou o material prioritariamente visual como um impedimento imutável. Com o auxílio de leitores de tela e a parceria dos colegas, participava ativamente de todas as discussões, sem jamais solicitar privilégios. Quando surgiu o convite para palestrar a professores da rede pública sobre inclusão, em um debate focado em Transtorno do Espectro Autista (TEA) e Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), ele se voluntariou prontamente. Com domínio técnico e a autoridade de sua própria experiência, desconstruiu a visão assistencialista sobre a pessoa com deficiência. Mostrou que o indivíduo não se reduz às suas limitações, mas se define também por suas potencialidades.
O segundo caso é o de uma aluna brilhante que, no decorrer de sua segunda graduação, recebeu o diagnóstico de uma doença progressiva que a levaria à surdez. Em uma profissão alicerçada na escuta, o desespero inicial a fez cogitar a desistência. No entanto, ela optou por ressignificar o próprio futuro. Aprendeu a Língua Brasileira de Sinais (Libras) e compreendeu que a verdadeira escuta ultrapassa o sentido biológico da audição. Hoje, formada, é uma das poucas psicólogas capacitadas a oferecer atendimento psicoterápico à comunidade surda em sua própria língua, suprindo uma lacuna histórica de acesso à saúde mental.
A terceira história envolve uma mãe atípica que adiou seus projetos pessoais por 18 anos para se dedicar ao desenvolvimento do filho neurodivergente. Quando finalmente ingressou na faculdade de Psicologia, transformou sua vivência em ciência. Em seu Trabalho de Conclusão de Curso, investigou e deu voz às angústias, alegrias e fortalezas de outras mães na mesma condição. Seu trabalho trouxe o tema para o centro do debate acadêmico e mobilizou famílias atípicas a compartilharem suas dores e estratégias de enfrentamento.
Por fim, uma aluna diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (TEA), suporte 1, procurou a docência com a proposta de divulgar o Dia do Orgulho Autista. A iniciativa desdobrou-se em uma roda de conversa aberta, na qual ela revelou publicamente seu diagnóstico pela primeira vez. Ao lado de duas colegas também autistas, relatou os desafios diários de interação, as estratégias de adaptação social e o peso dos estigmas de ser rotulada como “distante” ou “rígida”. Os depoimentos desmistificaram preconceitos e promoveram um ambiente de genuína empatia no meio universitário.
Essas trajetórias demonstram que a superação não significa ignorar as adversidades, mas encontrar caminhos para ressignificá-las. Aos meus alunos e ex-alunos, minha profunda gratidão pelas lições de humanidade e por transformarem suas batalhas individuais em contribuições coletivas.
Andréa é psicóloga, palestrante, pesquisadora e coordenadora do curso de Psicologia do Instituto Brasileiro de Gestão de Negócios (IBGEN). Também integra o corpo docente do Mestrado Profissional em Psicologia Organizacional e do Trabalho da Universidade Potiguar (UnP).
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