Descobrindo o extraordinário que existe no comum
- Luti Christóforo

- há 21 horas
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Texto de Luti Christóforo – Psicólogo
Talvez tenhamos aprendido a procurar a felicidade nos lugares errados. Esperamos por grandes acontecimentos. Uma conquista importante, uma mudança de vida, uma viagem inesquecível, um relacionamento perfeito, uma realização profissional. Criamos a expectativa de que, quando alguma coisa extraordinária finalmente acontecer, então poderemos dizer que somos felizes. Enquanto isso, a vida acontece.
Acontece em uma manhã tranquila, em uma conversa que nos faz bem, em uma música que desperta uma lembrança, em um café tomado sem pressa, em uma noite em que conseguimos dormir em paz. Acontece em um abraço, em uma risada inesperada, em um dia em que simplesmente conseguimos fazer aquilo que ontem parecia difícil. São momentos pequenos, quase invisíveis. E justamente por serem comuns, muitas vezes não percebemos o quanto podem ser importantes.

Vivemos em uma cultura que nos ensina a valorizar aquilo que pode ser mostrado. Grandes conquistas recebem aplausos. Fotografias registram viagens, formaturas, casamentos, prêmios e celebrações. Mas quase ninguém fotografa o momento em que conseguiu levantar da cama depois de uma fase difícil, dizer não quando precisava dizer não ou simplesmente passar um dia inteiro sem precisar fingir que estava bem. Existem conquistas que não recebem aplausos, mas continuam sendo conquistas.
Para uma pessoa neurodivergente, essa percepção pode ser especialmente importante. Há situações que parecem simples para algumas pessoas, mas que podem exigir enorme quantidade de energia, planejamento e esforço para outras. Conseguir atravessar um ambiente muito estimulante, organizar uma tarefa, lidar com uma mudança inesperada, estabelecer um limite ou concluir algo que vinha sendo adiado pode representar uma vitória genuína. Comparar essas conquistas com aquilo que outras pessoas conseguem fazer facilmente é uma maneira injusta de avaliar a própria caminhada. Cada pessoa conhece uma batalha que nem sempre aparece para os outros.
Por isso, talvez precisemos aprender a mudar a pergunta. Em vez de perguntar apenas “o que eu ainda não consegui?”, podemos perguntar: “o que eu consegui fazer hoje que merece ser reconhecido?” Essa mudança parece pequena, mas pode transformar a maneira como enxergamos nossa própria vida. Reconhecer pequenas conquistas não significa acomodar-se. Significa perceber o caminho percorrido. Existe uma diferença enorme entre não querer crescer e reconhecer que já crescemos muito.
Às vezes, estamos tão concentrados naquilo que falta que não percebemos a distância que já percorremos. A pessoa que hoje consegue estabelecer limites talvez seja a mesma que, alguns anos atrás, não conseguia dizer não. A pessoa que hoje consegue falar sobre seus sentimentos talvez seja aquela que passou grande parte da vida tentando escondê-los. A pessoa que hoje consegue pedir ajuda talvez tenha passado anos acreditando que precisava resolver tudo sozinha.
O crescimento nem sempre produz grandes transformações visíveis. Muitas vezes, ele acontece silenciosamente, em uma mudança de pensamento, em uma reação diferente, em uma escolha mais consciente, em uma relação mais saudável ou em um pouco mais de paciência consigo mesmo. É assim que a vida se transforma.
Na Psicologia Analítica, existe uma compreensão profundamente humana de que o desenvolvimento não consiste em nos tornarmos outra pessoa, mas em ampliarmos a consciência sobre quem somos. O processo de individuação acontece pouco a pouco, através da integração das diferentes partes da nossa personalidade e da construção de uma relação mais verdadeira conosco mesmos. Isso também significa aprender a reconhecer aquilo que antes ignorávamos, inclusive as pequenas alegrias.
Talvez tenhamos sido ensinados a esperar demais da vida. Esperamos o momento perfeito para começar a viver. Esperamos ter mais dinheiro, mais tempo, mais segurança, mais reconhecimento, mais disposição. Esperamos que todos os problemas estejam resolvidos para finalmente nos permitirmos desfrutar daquilo que já existe. Mas os problemas raramente desaparecem completamente. A vida não oferece garantias de tranquilidade permanente. Por isso, aprender a encontrar significado no cotidiano é também uma forma de maturidade.
Não precisamos esperar que tudo esteja bem para perceber que alguma coisa pode estar boa. Podemos estar atravessando uma fase difícil e, ainda assim, desfrutar de uma conversa agradável. Podemos ter preocupações e, ainda assim, sentir gratidão por um momento de paz. Podemos não ter alcançado tudo aquilo que desejávamos e, ainda assim, reconhecer que algumas coisas importantes já fazem parte da nossa história.
A felicidade talvez seja menos parecida com uma chegada e mais parecida com uma capacidade. A capacidade de perceber, de estar presente, de reconhecer, de sentir, de valorizar aquilo que normalmente passa despercebido. Existe algo extraordinário em uma vida comum. Existe beleza em acordar e ter mais uma oportunidade de tentar. Existe beleza em preparar uma refeição para alguém que amamos, em ouvir uma música antiga e perceber que algumas memórias ainda conseguem nos tocar, em conversar durante horas ou simplesmente ficar em silêncio ao lado de alguém.
Existe também beleza em descobrir que determinada coisa que antes parecia impossível hoje já faz parte da nossa rotina. Talvez o extraordinário não seja aquilo que acontece raramente. Talvez seja aquilo que conseguimos enxergar quando aprendemos a olhar com mais atenção.
E talvez uma das maiores formas de felicidade seja perceber que não precisamos esperar uma vida extraordinária para começar a valorizar a vida que temos. Porque, no fim, são os pequenos momentos que ocupam a maior parte da nossa existência. As grandes conquistas podem marcar a nossa história, mas são os pequenos instantes que a preenchem.
Por isso, antes de terminar este dia pensando em tudo aquilo que ainda falta, experimente olhar para aquilo que já existe. Talvez você descubra que avançou mais do que imaginava. Talvez perceba que algumas das coisas que considera banais são, na verdade, preciosas. E talvez compreenda que a felicidade não estava esperando por um acontecimento extraordinário. Ela estava ali, silenciosa, escondida nas pequenas coisas que você aprendeu a chamar de comuns.
Às vezes, viver melhor não exige uma vida diferente. Exige apenas um olhar diferente para a vida que já temos. E quando aprendemos a olhar assim, descobrimos que o comum nunca foi tão comum quanto parecia.
Luti Christóforo
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