Entrevista com Marcos Scaldelai
- Portal NeuroDivergente

- há 2 horas
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por Eliana Nakakubo - Portal dos Neurodivergentes

1.Como você enxerga o mercado de trabalho brasileiro hoje em relação à inclusão de pessoas neurodivergentes? Já avançamos ou ainda há grandes barreiras?
O Brasil avançou bastante nos últimos anos em relação ao debate sobre diversidade e inclusão, mas quando falamos especificamente de neurodiversidade ainda estamos em um estágio de amadurecimento. Muitas empresas começaram a entender a importância do tema, porém ainda existem barreiras culturais, falta de informação e modelos de contratação que não contemplam diferentes perfis cognitivos e comportamentais. O mercado ainda é muito baseado em padrões tradicionais de comunicação, socialização e produtividade. Precisamos evoluir para ambientes mais adaptáveis, preparados para reconhecer talentos além dos formatos convencionais.
2.Muitas empresas falam sobre diversidade, mas poucas falam de neurodiversidade. Por que esse tema precisa entrar de vez na pauta corporativa?
Porque a neurodiversidade faz parte da realidade da sociedade e das organizações. Não é mais possível falar de inclusão de forma ampla sem considerar pessoas com TEA, TDAH, dislexia e outros perfis neurodivergentes. Além da questão social e humana, existe um enorme potencial profissional ainda subaproveitado. Empresas inovadoras precisam de diferentes formas de pensar, interpretar problemas e construir soluções. Quando a neurodiversidade entra na pauta corporativa de maneira estruturada, a empresa amplia sua capacidade criativa, fortalece a inovação e constrói equipes mais diversas e complementares.
3.Quais são as principais habilidades e talentos que pessoas neurodivergentes costumam trazer para o ambiente profissional e que ainda são subestimados pelo mercado?
Existem muitas habilidades que ainda são pouco compreendidas pelas empresas. Dependendo do perfil, pessoas neurodivergentes podem apresentar altíssima capacidade de concentração, pensamento lógico, criatividade, atenção a detalhes, reconhecimento de padrões, profundidade analítica e grande comprometimento com processos e rotinas. Em áreas ligadas à tecnologia, dados, inovação, processos e criatividade, por exemplo, esses talentos podem gerar resultados extremamente positivos. O mercado muitas vezes olha primeiro para as dificuldades de adaptação, quando deveria olhar para o potencial de contribuição dessas pessoas.
4.Qual é a contribuição de um evento como o HR First Class para preparar tanto os profissionais neurodivergentes quanto as empresas para uma inclusão real e sustentável?
O HR First Class tem um papel muito importante porque promove um debate qualificado e estratégico sobre um tema que ainda precisa ganhar mais profundidade dentro das empresas. O evento cria conexão entre lideranças de RH, especialistas e o mercado, ajudando a transformar inclusão em prática concreta e não apenas em discurso. Além disso, amplia o nível de conscientização das empresas sobre a importância de desenvolver processos seletivos, lideranças e culturas organizacionais mais preparadas para acolher diferentes perfis profissionais. A inclusão sustentável acontece quando existe informação, preparo e compromisso coletivo.
5.Na sua visão, o que falta para que mais lideranças empresariais compreendam que inclusão não é custo, mas investimento?
Falta ampliar a visão estratégica sobre o tema. Muitas lideranças ainda enxergam inclusão apenas pelo viés da obrigação social ou do compliance, quando na verdade estamos falando de competitividade, inovação e construção de ambientes mais saudáveis e produtivos. Empresas diversas tendem a ter mais criatividade, melhor capacidade de resolver problemas e maior conexão com a sociedade e os consumidores. Quando existe inclusão verdadeira, existe ganho para todos: para a empresa, para as equipes e para os profissionais.
6.Você acredita que a sociedade brasileira está mais preparada hoje para acolher pessoas neurodivergentes em todos os espaços, além do mercado de trabalho?
A sociedade evoluiu bastante no debate sobre saúde mental, inclusão e diversidade, principalmente nos últimos anos. Hoje existe mais informação, mais diálogo e mais conscientização. Mas ainda há muito caminho pela frente. O acolhimento precisa avançar não apenas nas empresas, mas também nas escolas, universidades e na convivência social de forma geral. O mais importante é entendermos que inclusão não significa tratar todos de forma igual, mas sim respeitar diferentes necessidades, capacidades e formas de interação com o mundo.
7.Que mensagem você deixaria para famílias que convivem com pessoas neurodivergentes e ainda têm receio sobre o futuro profissional de seus filhos?
A principal mensagem é que existe espaço, potencial e oportunidades para pessoas neurodivergentes desenvolverem carreiras de muito sucesso. O mercado está em transformação e as empresas começam a compreender cada vez mais o valor da diversidade cognitiva. É fundamental estimular autonomia, desenvolvimento de habilidades e confiança desde cedo. Cada pessoa possui talentos únicos e a sociedade está avançando para reconhecer isso de maneira mais madura. O futuro profissional não deve ser visto pela limitação, mas pelas capacidades e possibilidades que cada indivíduo pode construir.



