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O dom de ser "inadequada": Como transformei o autismo em hiperfoco para criar uma empresa 100% PCD

  • Foto do escritor: Sueli Parisi
    Sueli Parisi
  • há 14 horas
  • 4 min de leitura

Por Sueli Parisi


Meu nome é Sueli Parisi. Sou mulher, tenho 59 anos, e passei grande parte da minha jornada tentando entender o porquê de eu não me encaixar. Minha infância foi difícil. Sempre fui muito mais inteligente que a média, mas não me adequava a nenhum segmento escolar. Eu olhava para as pessoas da minha idade e me sentia diferente; não gostava de conviver com elas, pois sempre me pareciam ter prioridades diferentes das minhas.


Meus pais tinham condições financeiras, mas, sem nenhuma informação sobre neurodivergência me trataram como alguém que precisava ser consertada.

Fizeram de tudo para me igualar aos outros da minha idade, mas sem sucesso. Fui rotulada de danada e terrível, diziam que eu tinha "rodinha no pé". Fui levada a médicos, igrejas, benzedeiras e Deus sabe mais o que, mas a verdade é que eu continuava sendo diferente. Eu carregava a culpa de ter acessos de raiva sem motivo aparente e a dor de não conseguir me adaptar, sempre extremamente incomodada com o meu entorno.


Já adulta e mãe de dois filhos, um encontro mudou a minha perspectiva. Conheci uma atriz muito famosa que olhou para mim e disse que eu era "inadequada".


Para a minha surpresa, ela me explicou que isso era muito bom: ser inadequada significava que eu tinha o poder de entrar e sair dos mundos que existiam sem me contaminar.


Esse foi o início dos meus questionamentos. Eu precisava entender, afinal, por que eu era tão diferente.


O verdadeiro espelho, no entanto, veio através do meu filho mais novo, o Roberto. Ele sempre foi genial, exatamente com o mesmo perfil que eu tinha na infância. Ele era mais inteligente que a média e também não se adequava, apresentando acessos de raiva, gritos sem motivos e incômodos gerais. Aos 48 anos, comecei a fazer terapia e fui encaminhada a uma neurologista. Aos 50, recebi o meu laudo: fui diagnosticada com Transtorno do Espectro Autista (Síndrome de Asperger, CID F84.5). A surpresa não foi tão grande, pois observar as características do Roberto — que também foi diagnosticado com autismo — já havia me preparado.


Lidar com a descoberta do meu próprio autismo enquanto tentava diagnosticar meu filho foi desafiador, mas me trouxe uma clareza libertadora sobre a nossa própria casa. Em um momento de depressão pelo diagnóstico, a ficha caiu. Meu marido, Fábio, tem encurtamento do membro inferior direito, o que nunca foi um problema para nós. Meu filho mais velho, Murillo, realizou um transplante de córnea e vive com baixa visão. Ou seja: éramos uma família inteira de Pessoas com Deficiência (PCD). Intuitivamente, nossos amigos também eram PCDs, então, para nós, o diferente sempre foi o normal.


Com o diagnóstico, fui descobrindo gradativamente meus gatilhos. Entendi que ambientes lotados, supermercados e TV ligada durante as refeições me desregulavam. Como mascarei meus traços a vida toda, saber exatamente o que me incomodava ajudou a minimizar muito os meus surtos. Também percebi que o que as pessoas chamavam de "inteligência" era, na verdade, hiperfoco.


Eu não paro até conseguir o que eu quero.


Foi assim que transformei minha trajetória profissional. Eu sempre fui extremamente organizada, beirando uma "psicopatia organizacional".


"Nossos piores 'defeitos' são nossas maiores qualidades, depende apenas da forma como os direcionamos." — Sueli Parisi


Assim nasceu o propósito da Mosaiky, a nossa empresa, onde o Fábio atua como Diretor Geral, eu sou a Coordenadora Geral, o Roberto é Curador e o Murillo é o Diretor de Arte.


Direcionei meu hiperfoco para os projetos culturais incentivados, que precisavam exatamente das minhas habilidades. A Mosaiky cresceu e se tornou uma empresa cujo quadro diretor é 100% formado por pessoas com deficiência.


Com o lema "É pra todos", nós contratamos exclusivamente pessoas com deficiência e outras minorias excluídas. Na concepção de cada projeto, cada membro da equipe defende o seu ponto de vista e as suas necessidades, o que faz com que nossas entregas unam acessibilidade e sustentabilidade em uma abordagem 360°.


Hoje, temos dezenas de projetos aprovados e com prestações de contas primorosas. Realizamos entregas precisas, feitas por pessoas que a sociedade muitas vezes enxerga como "não tão perfeitas", mas que são absolutamente perfeitas para os cargos que ocupam e para a amizade que desenvolvemos. Transformamos a nossa "inadequação" em orgulho e referência no mercado, provando que ninguém precisa ficar de fora.


Sobre a Mosaiky

O projeto é desenvolvido pela Mosaiky, uma empresa genuinamente inclusiva formada e dirigida por pessoas com deficiência.Seu time diretivo reúne profissionais com diferentes experiências, incluindo baixa visão, autismo, paralisia cerebral e encurtamento dos membros inferiores. Essa vivência direta da diversidade impulsiona a criação de projetos que buscam inclusão real, inovação tecnológica e impacto social. Reconhecida por unir arte, tecnologia e acessibilidade em uma abordagem 360°, a Mosaiky desenvolve iniciativas culturais que ampliam o acesso à cultura e propõem novas formas de interação entre arte, cidade e sociedade. A empresa leva para o universo cultural o mesmo nível de planejamento e excelência encontrados em grandes corporações, aplicando esses princípios na criação de projetos artísticos com forte compromisso social.

Seu lema resume essa visão:

“É pra todos.”

Na Mosaiky, ninguém fica de fora.



 

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