Por que a identificação da superdotação em mulheres costuma acontecer mais tarde?
- Damião Silva

- há 2 horas
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Psicólogo Damião Silva explica como estereótipos, expectativas sociais e diferentes formas de manifestação do potencial podem contribuir para a subidentificação de meninas e mulheres superdotadas
Quando falamos sobre superdotação, ainda persiste um imaginário bastante restrito: o de que a pessoa superdotada necessariamente apresenta desempenho acadêmico excepcional, alta produtividade ou alguma habilidade extraordinária facilmente reconhecível. Esse estereótipo pode dificultar a identificação de diferentes perfis e merece atenção especial quando pensamos em meninas e mulheres.
Historicamente, expectativas sociais relacionadas ao gênero podem influenciar a forma como determinadas características são expressas, percebidas e valorizadas. Algumas meninas aprendem precocemente que questionar excessivamente, demonstrar conhecimentos muito acima dos pares, competir ou expressar grande intensidade pode gerar desconforto ou rejeição. Em determinados contextos, podem passar a regular a própria expressão para favorecer aceitação e pertencimento.

Isso não significa que exista um único perfil feminino de superdotação, nem que todas as mulheres superdotadas apresentem camuflagem. Significa reconhecer que fatores sociais, educacionais e culturais podem interferir na visibilidade de determinadas manifestações do potencial.
Quando não há desempenho acadêmico excepcional ou comportamentos que correspondam ao estereótipo tradicional de superdotação, a hipótese muitas vezes sequer é considerada por familiares, professores ou profissionais.
Quando o sofrimento ganha mais visibilidade que o potencial
Perfeccionismo, autocrítica elevada, intensidade emocional, interesses muito aprofundados, necessidade de complexidade e sensação de inadequação podem estar presentes na trajetória de algumas pessoas superdotadas. Entretanto, essas características não são critérios diagnósticos de superdotação e tampouco são exclusivas dessa população.
Esse cuidado é fundamental porque muitos desses fenômenos também aparecem em outros perfis psicológicos e condições clínicas. O desafio está justamente em não interpretar uma característica isolada como evidência de superdotação.
Uma investigação adequada precisa considerar o funcionamento cognitivo, a trajetória de desenvolvimento, as oportunidades educacionais, os interesses, as realizações, as potencialidades e o contexto sociocultural daquela pessoa.
Também é necessário considerar a possibilidade de dupla excepcionalidade, quando um potencial elevado coexiste com uma deficiência, transtorno ou outra condição do neurodesenvolvimento. TDAH e TEA, por exemplo, podem coexistir com superdotação. Nesses casos, forças e dificuldades podem se compensar ou se mascarar parcialmente, contribuindo para identificações tardias ou interpretações incompletas do funcionamento da pessoa.
Por que algumas mulheres chegam à vida adulta sem terem sido identificadas?
A ausência de identificação na infância não implica necessariamente sofrimento psicológico. Muitas mulheres constroem trajetórias acadêmicas, profissionais e relacionais satisfatórias sem jamais terem sido formalmente identificadas.
Para outras, entretanto, a investigação na vida adulta surge após uma longa trajetória de perguntas sobre o próprio funcionamento: necessidade constante de aprofundamento, interesses muito intensos, busca por complexidade, sensação de discrepância em relação aos pares ou dificuldade para encontrar ambientes suficientemente desafiadores.
Quando bem conduzida, a identificação na vida adulta pode contribuir para uma releitura da própria trajetória. Mas é preciso cuidado para não transformar a superdotação em uma explicação retrospectiva para todos os conflitos, escolhas, dificuldades ou sofrimentos vivenciados.
Avaliação não se resume a um teste de inteligência
Não existe uma lista de características capaz, isoladamente, de determinar que alguém seja superdotado.
Capacidade elevada de aprendizagem, raciocínio complexo, facilidade para estabelecer relações entre informações, criatividade, profundidade de interesses e desempenho ou potencial significativamente elevado em determinadas áreas podem constituir indicadores relevantes. Entretanto, precisam ser compreendidos dentro de uma avaliação mais ampla.
Da mesma forma, reduzir a avaliação à obtenção de um escore de QI pode produzir uma compreensão limitada do indivíduo. A investigação deve integrar diferentes fontes de informação e considerar aspectos cognitivos, desenvolvimentais, educacionais, emocionais, comportamentais e contextuais, de acordo com o objetivo da avaliação e com o referencial teórico adotado.
Identificar a superdotação na vida adulta não transforma aquela mulher em outra pessoa. O que pode mudar é a compreensão sobre sua própria trajetória, suas potencialidades, suas necessidades e também suas vulnerabilidades.
Para mim, identificar a superdotação não significa encontrar um rótulo capaz de explicar uma vida inteira. Significa ampliar a compreensão sobre um funcionamento complexo que talvez tenha permanecido pouco reconhecido durante muitos anos.
Talvez, portanto, o desafio não seja ensinar mulheres superdotadas a se encaixar melhor. O desafio é também construir contextos educacionais, profissionais e sociais nos quais diferentes formas de expressão do potencial possam ser reconhecidas sem que essas mulheres precisem diminuir sua complexidade para pertencer.
Sobre o autor
Damião Silva é psicólogo e neuropsicólogo, mestre em Psicologia com ênfase em Avaliação Psicológica e pesquisador na área de Altas Habilidades/Superdotação e Dupla Excepcionalidade. Atua com avaliação psicológica e neuropsicológica, formação profissional e desenvolvimento de projetos relacionados à superdotação, neurodiversidade e educação inclusiva.
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Site: danpsicologo.com.br



