Quando sentir demais vira solidão
- Luti Christóforo

- há 10 minutos
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texto de Luti Christóforo - Psicólogo
Sentir demais pode ser uma dádiva. Mas também pode se tornar um peso silencioso. Para muitas pessoas neurodivergentes, a intensidade emocional é parte estrutural do seu modo de existir. Elas não vivem emoções na superfície. Elas mergulham. Percebem nuances, captam detalhes invisíveis, sentem mudanças sutis no ambiente e nas relações. O problema não está na profundidade. Está na solidão que pode surgir quando não há quem consiga sustentar essa intensidade.
A sociedade costuma valorizar relações rápidas, superficiais e funcionais. Conversas curtas, vínculos leves, emoções moderadas. Para quem sente de forma ampliada, esse padrão gera frustração. A pessoa deseja conexão real, escuta verdadeira, troca profunda. Mas frequentemente encontra respostas rasas, desconforto diante da vulnerabilidade ou até afastamento.

Quando a intensidade emocional não é compreendida, ela passa a ser vista como exagero. O neurodivergente aprende, então, a se conter. Aprende a reduzir a própria profundidade para não assustar. Aprende a falar menos do que sente. Aprende a esconder o que vive por dentro. E, pouco a pouco, começa a se sentir sozinho, mesmo cercado de pessoas.
A solidão que nasce dessa experiência não é a ausência de companhia. É a ausência de espelhamento emocional. É a sensação de que ninguém alcança o lugar interno onde as emoções realmente acontecem. É falar e perceber que o outro não consegue acompanhar. É se abrir e perceber que a resposta vem simplificada demais para o tamanho do que foi compartilhado.
No consultório, muitas pessoas relatam essa dor com clareza. Dizem que sempre se sentiram diferentes nas relações. Que se entregam intensamente, mas raramente encontram reciprocidade na mesma profundidade. Que desejam vínculos mais densos, mas parecem estar sempre um passo além do que o outro consegue oferecer.
Essa experiência pode gerar retraimento. A pessoa começa a pensar que sentir demais é um erro. Pode surgir vergonha da própria sensibilidade. Pode surgir medo de ser vista como complicada, dramática ou difícil. E a tentativa de se proteger acaba aprofundando ainda mais a solidão.
Psicologicamente, é importante compreender que a intensidade emocional não é problema. Ela é característica. O desafio está em encontrar ambientes e pessoas capazes de sustentar essa profundidade. Nem todos conseguem, e isso não significa que a pessoa esteja errada. Significa apenas que há diferentes níveis de disponibilidade emocional no mundo.
Aprender a lidar com essa realidade envolve dois movimentos. O primeiro é aceitar que nem todo vínculo será profundo, e que isso não precisa ser vivido como rejeição. O segundo é investir conscientemente em relações que demonstrem maturidade emocional, escuta ativa e capacidade de sustentar vulnerabilidade.
A solidão diminui quando a pessoa deixa de se diminuir para caber. Quando reconhece que sua intensidade é parte do que a torna única. Quando entende que não precisa se tornar superficial para ser aceita. Quando percebe que algumas conexões demoram, mas existem.
Sentir demais não é defeito. É potência emocional.
A dificuldade não está em sentir. Está em encontrar quem consiga ficar.
E quando esse encontro acontece, a solidão deixa de ser peso e se transforma em pertencimento.
Luti Christóforo
Psicólogo clínico
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