A INFÂNCIA NÃO COMPREENDIDA. AS FERIDAS EMOCIONAIS DE UMA CRIANÇA QUE FOI VISTA COMO DIFÍCIL
- Luti Christóforo

- 16 de jan.
- 2 min de leitura
Texto de Luti Christóforo - Psicólogo
A infância é o lugar onde as primeiras narrativas sobre quem somos começam a ser construídas. É nesse período que a criança aprende, ainda sem consciência plena, como o mundo a enxerga e como ela deve se enxergar.
Para crianças neurodivergentes, porém, esse processo costuma ser marcado por mal-entendidos dolorosos. Antes que entendam suas próprias necessidades, elas já aprendem que são "difíceis", "intensas", "distraídas", "desobedientes" ou "preguiçosas".

Essa incompreensão não causa apenas sofrimento momentâneo; ela cria feridas emocionais que acompanharão a pessoa até a vida adulta.
A criança neurodivergente não entende por que o que é simples para os outros é tão difícil para ela. Não entende por que precisa de mais tempo, mais silêncio, mais previsibilidade, mais descanso e mais explicações. Muito menos entende por que sua sensibilidade é tratada como exagero e sua intensidade como defeito.
O problema é que os adultos, muitas vezes, interpretam o comportamento neurodivergente a partir de normas rígidas de conduta infantil. Se a criança não consegue ficar parada, é desobediente. Se não consegue manter a atenção, é preguiçosa. Se não suporta barulho, é "fresca". Se reage com força emocional, é dramática. E cada rótulo desses cria uma camada de vergonha.
No consultório, vejo adultos que carregam até hoje essas vozes da infância. Eles dizem: “Eu nunca fui bom o suficiente”, “Sempre me senti errado” ou “Desde criança aprendi que eu era o problema”.
Essas frases não surgem por acaso. São resultado de anos tentando ajustar seu funcionamento interno para caber em expectativas externas impossíveis.
A infância não compreendida gera três grandes feridas:
1. A perda de confiança em si mesma: a criança passa a acreditar que suas percepções são falhas.
2. A dificuldade de estabelecer limites na vida adulta: já que aprendeu a se anular para evitar conflitos.
3. Uma profunda solidão emocional: pois nunca se sentiu vista de verdade.
Essas feridas, porém, não são definitivas. A cura começa quando o adulto revisita sua história não com julgamento, mas como esclarecimento. A pessoa passa a enxergar aquela criança sensível, confusa e esforçada com olhos amorosos. Entende que ela não era difícil; ela era diferente. E precisava de acolhimento, não de broncas. Precisava de compreensão, não de rótulos. Precisava de apoio, não de comparação.
A psicoterapia permite que essa criança interior, tantas vezes silenciada, finalmente seja escutada. É nesse encontro interno que a cura começa. A pessoa aprende a libertar-se dos rótulos, a reconstruir sua autoestima e a devolver a si mesma o direito de existir como é. Quando a infância é ressignificada, a vida adulta se torna mais leve, e o peso de não ter sido compreendido se transforma em força para compreender a si mesmo.
Luti Christóforo
Psicólogo clínico.
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