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Além do diagnóstico: os desafios doautismo e da inclusão no Brasil

  • Foto do escritor: Bruno Landim
    Bruno Landim
  • há 7 horas
  • 4 min de leitura

O cuidado com pessoas no espectro autista exige escuta, individualização terapêutica e uma rede de apoio que vá além do discurso


Falar sobre neurodivergência no Brasil é falar, necessariamente, sobre acesso, escuta e inclusão real. Nos últimos anos, o tema passou a ocupar mais espaço no debate público, nas escolas, nas famílias e nos consultórios. Ainda assim, a realidade de muitas pessoas com Transtorno do Espectro Autista e de seus cuidadores continua sendo marcada por diagnóstico tardio, desinformação, dificuldade de acesso a tratamento e uma inclusão que, muitas vezes, ainda existe mais no discurso do que na prática.


O TEA não pode ser compreendido a partir de uma visão simplificada. Trata-se de uma condição complexa, heterogênea e multifatorial, com manifestações que variam de pessoa para pessoa. Em alguns casos, os sinais aparecem de forma mais evidente na linguagem e na interação social. Em outros, predominam alterações sensoriais, agitação, distúrbios do sono, dificuldade de autorregulação, seletividade alimentar, sintomas gastrointestinais ou sofrimento importante diante de mudanças ambientais. Por isso, o diagnóstico exige preparo técnico, olhar clínico qualificado e sensibilidade para perceber que não existe um único perfil dentro do espectro.



No Brasil, esse ainda é um dos principais gargalos. Muitas famílias notam precocemente que algo não vai bem, mas enfrentam uma trajetória longa até obter uma avaliação adequada. Há casos em que os sinais são minimizados. Em outros, há laudo, mas não há continuidade de cuidado. E sem rede terapêutica, orientação familiar e suporte educacional, o diagnóstico por si só não transforma a realidade da criança.


“Quando falamos em autismo, não estamos falando apenas de comportamento. Estamos falando de regulação, adaptação, funcionalidade e qualidade de vida. Cada paciente precisa ser visto em sua singularidade”, destaca o Dr. Bruno Landim.


Essa compreensão é essencial para que se avance também no conceito de inclusão. Incluir não é apenas permitir presença física em um ambiente escolar ou social. Inclusão verdadeira pressupõe estrutura, preparo, recursos e compromisso com o desenvolvimento possível de cada indivíduo. Isso envolve professores capacitados, instituições mais sensíveis, famílias acolhidas e profissionais que consigam construir planos terapêuticos individualizados, sem reducionismos.


Nesse cenário, cresce o interesse por abordagens complementares que possam contribuir com a regulação do sistema nervoso e com o ganho funcional de pacientes no espectro. Entre essas possibilidades está a neuromodulação, uma abordagem não invasiva que busca modular a atividade do sistema nervoso central e periférico, favorecendo melhor organização funcional do organismo, modulação autonômica e neuroplasticidade adaptativa.


Na prática clínica, isso significa ampliar o olhar sobre a criança. Muitos pacientes com TEA apresentam sinais de desregulação do sistema nervoso autônomo, com hiperreatividade emocional e sensorial, alterações do sono, irritabilidade, agitação e dificuldade de adaptação. A proposta da neuromodulação é atuar como recurso complementar dentro de um cuidado mais amplo, buscando favorecer melhor regulação do organismo e maior possibilidade de resposta a outras terapias. Entre os benefícios observados clinicamente, estão melhora do sono, redução da agitação, diminuição da reatividade sensorial, melhora da comunicação e da interação social, além de maior disposição para participação em terapias e no convívio familiar.


Na experiência da Landim Medicina Integrativa, a neuromodulação tem integrado o acompanhamento de pacientes com TEA dentro de uma proposta multidimensional de cuidado. Ao longo da prática clínica, têm sido observadas evoluções importantes em aspectos como autorregulação, qualidade do sono, controle emocional, atenção, interação e participação nas atividades terapêuticas, sempre respeitando a individualidade de cada criança e entendendo que os resultados não seguem um padrão único nem devem ser generalizados de forma automática.


É fundamental, no entanto, manter responsabilidade na forma como esse tema é apresentado. Neuromodulação não substitui acompanhamento médico, intervenções terapêuticas do desenvolvimento, suporte escolar ou o trabalho interdisciplinar. Ela pode compor um plano terapêutico individualizado, desde que haja critério clínico, avaliação cuidadosa e acompanhamento contínuo.


A literatura científica recente também aponta para a relevância de abordagens personalizadas. Um artigo publicado em 2024 no Journal of Personalized Medicine relatou o caso de gêmeas dizigóticas diagnosticadas com TEA nível 3 que apresentaram melhora importante após uma condução multidisciplinar baseada principalmente em fatores ambientais e de estilo de vida modificáveis. O estudo descreveu redução expressiva dos escores de avaliação clínica e melhora sustentada durante o acompanhamento, embora os próprios autores ressaltem que se trata de um relato de caso e que estudos prospectivos ainda são necessários. O dado mais importante, nesse contexto, não é a generalização apressada, mas o reforço de uma ideia central: crianças no espectro podem se beneficiar de estratégias amplas, integradas e individualizadas.


“O futuro do cuidado em neurodesenvolvimento não está em soluções únicas, mas em abordagens personalizadas, integradas e construídas com escuta clínica”, afirma o Dr. Bruno Landim.


Esse talvez seja o ponto mais importante do debate. O Brasil precisa amadurecer sua forma de olhar para a neurodivergência. Nem negando as dificuldades concretas enfrentadas por pacientes e famílias, nem tratando o diagnóstico como uma sentença imutável desconectada de possibilidades terapêuticas. Entre esses dois extremos, existe um caminho mais responsável: reconhecer a complexidade do espectro, fortalecer o diagnóstico precoce, ampliar o acesso às terapias, apoiar as famílias e desenvolver modelos de cuidado cada vez mais humanos e eficazes.


Também é preciso falar sobre desigualdade. Nem todas as famílias conseguem acesso a neuropediatras, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, psicólogos, nutricionistas e médicos com visão integrativa. Nem todas conseguem manter frequência terapêutica adequada. Nem todas encontram escolas preparadas para acolher. Por isso, falar de inclusão no Brasil também é falar de políticas públicas, formação profissional e compromisso institucional.


A pessoa neurodivergente não deve ser reduzida ao seu diagnóstico. Mas isso não significa ignorar suas necessidades. Cuidar é acolher, investigar, individualizar e oferecer caminhos possíveis. Incluir é garantir que essa pessoa tenha suporte real para desenvolver seu potencial, com dignidade, respeito e oportunidade.


Dr. Bruno Landim - Médico com atuação em medicina integrativa e neuromodulação

@drbrunolandim

@landimmedicinaintegrativa






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