Autismo na vida adulta: o peso do 'masking' e o alívio do diagnóstico tardio
- Matheus Luis Castelan Trilico
- há 8 horas
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Neurologista explica como a camuflagem social adoece a chamada "geração perdida" do autismo e por que a descoberta na fase adulta é o primeiro passo para a verdadeira qualidade de vida.
Mais do que um laudo médico, o diagnóstico de autismo na vida adulta revela histórias profundas de adaptação e desafios silenciosos. Para milhares de pessoas, receber essa resposta tardiamente é uma experiência transformadora: é o momento em que dificuldades sociais, interpessoais e sensoriais de longa data finalmente ganham uma explicação lógica, dando sentido a uma vida inteira de sentimentos de inadequação ou marginalização.

No entanto, a ciência tem lançado luz sobre uma realidade preocupante. Existe uma verdadeira "geração perdida" de adultos autistas que cresceram sem o suporte adequado. Segundo o Dr. Matheus Trilico, neurologista referência no atendimento de adultos com Transtorno do Espectro Autista (TEA) e TDAH, a falta de diagnóstico precoce cobra um preço altíssimo da saúde mental.
"Muitos adultos chegam ao consultório exaustos. Eles passaram décadas tentando se encaixar em um mundo que parece funcionar em uma frequência incompreensível. Para sobreviver a isso, desenvolvem o que chamamos de masking, ou camuflagem social: um esforço constante e quase inconsciente para esconder seus traços autistas e parecerem neurotípicos", explica o especialista.
O custo invisível de tentar "parecer normal"
Embora a camuflagem seja uma estratégia de sobrevivência para navegar nas situações sociais, ela é devastadora a longo prazo. Estudos recentes mostram que o masking — especialmente comum em adultos diagnosticados tardiamente e em mulheres — está diretamente associado à exaustão crônica, confusão de identidade, baixa autoestima e quadros graves de depressão e ansiedade.
O impacto dessa falta de clareza é tão grande que cerca de um quarto dos adultos autistas relata ter recebido diagnósticos psiquiátricos incorretos ao longo da vida. Entre as mulheres, essa proporção é ainda maior, chegando a um terço. "Muitos pacientes atribuem seus sintomas de trauma e ansiedade aos anos vivendo com um autismo não diagnosticado, enfrentando solidão, exclusão e até bullying sem entender o porquê. O diagnóstico tardio vem para corrigir essa rota", pontua o Dr. Trilico.
O alívio da descoberta e os caminhos para o bem-estar
Apesar de o processo de descoberta na vida adulta ser muitas vezes confuso e esbarrar na falta de serviços de saúde preparados para esse público, os benefícios do diagnóstico são imensos. Ele promove a autoaceitação, o empoderamento e permite que a pessoa finalmente se conecte com uma comunidade que a entende. No ambiente familiar e de trabalho, o laudo abre portas para ajustes e acomodações essenciais.
Para que essa nova fase seja de fato libertadora, o neurologista ressalta que o foco do tratamento não deve ser "consertar" o indivíduo, mas sim otimizar o ambiente ao seu redor e tratar as condições que frequentemente caminham junto com o autismo.
"Hoje sabemos que a Terapia Cognitivo-Comportamental, quando adaptada especificamente para o cérebro autista, é o tratamento de primeira linha para lidar com a ansiedade e a depressão coexistentes. Além disso, precisamos criar ambientes corporativos e sociais mais amigáveis à neurodiversidade", orienta o Dr. Matheus.
O diagnóstico na vida adulta não é uma sentença de limitação. Pelo contrário, a ciência mostra que, com o passar dos anos e o autoconhecimento adequado, muitos adultos autistas relatam uma melhora significativa na qualidade de vida social. "O diagnóstico não define a pessoa, ele traz clareza para uma história vivida no escuro. É a permissão definitiva para que esse adulto pare de se camuflar e comece, finalmente, a viver de forma autêntica e respeitosa consigo mesmo", conclui o neurologista.
Sobre o médico:
Dr. Matheus Luis Castelan Trilico - CRM 35805PR, RQE 24818.
Médico pela Faculdade Estadual de Medicina de Marília (FAMEMA);
Neurologista com residência médica pelo Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (HC-UFPR);
Mestre em Medicina Interna e Ciências da Saúde pelo HC-UFPR
Pós-graduação em Transtorno do Espectro Autista
Mais artigos sobre TEA e TDAH em adultos podem ser vistos no portal do neurologista: https://blog.matheustriliconeurologia.com.br/



