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“Eu odeio Carnaval”: quando preferir o silêncio também é saúde

  • Foto do escritor: Andréa Paz
    Andréa Paz
  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Por Andréa Paz, Pós-Doutora em fonoaudiologia, especialista em audiologia e Transtorno do Processamento Auditivo Fevereiro chega, o país entra no clima do Carnaval e, junto com ele, parece surgir uma regra não escrita: é preciso gostar. Gostar do barulho, da multidão, da música alta, da euforia. Mas a verdade é que muitas pessoas não se sentem bem nesse cenário. Preferem ficar em casa, buscar ambientes tranquilos, diminuir estímulos. E isso não é tristeza, frescura ou falta de sociabilidade. Em muitos casos, é autocuidado.


Como fonoaudióloga, observo diariamente o quanto o excesso de estímulos sonoros impacta o corpo, o comportamento, a concentração e o emocional. O som não é apenas algo que ouvimos. Ele é algo que o cérebro precisa organizar, filtrar e interpretar. Quando esse sistema é sobrecarregado, surgem sinais como irritação, cansaço extremo, dor de cabeça, dificuldade de atenção, ansiedade e até crises de choro ou isolamento.



O Carnaval é, por natureza, um ambiente de hiperestimulação: volumes elevados, sons sobrepostos, multidões, vibração constante. Para algumas pessoas, isso é prazer. Para outras, é exaustão.


E está tudo bem.


O silêncio também é uma necessidade biológica


Vivemos em uma sociedade que associa alegria a barulho. Mas o silêncio é essencial para o sistema nervoso. Ele permite que o cérebro desacelere, reorganize informações, regule emoções e recupere energia. Não é por acaso que ambientes muito ruidosos aumentam níveis de estresse, dificultam a concentração e prejudicam o sono.


Pessoas que preferem o silêncio não são necessariamente “antissociais”. Muitas vezes, são pessoas com um sistema sensorial mais sensível, que percebem sons, movimentos e estímulos de forma mais intensa. Aqui também podemos citar como exemplo as Pessoas Altamente Sensíveis (PAS), conceito estudado na psicologia e também de muitas pessoas neurodivergentes.


Crianças neurodivergentes e o impacto do ruído


Crianças com Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC), TEA, TDAH ou outras condições do neurodesenvolvimento costumam ter maior dificuldade para filtrar sons. Em ambientes barulhentos, o cérebro não consegue separar o que é importante do que é ruído de fundo. O resultado pode ser desorganização, dificuldade de aprendizagem, crises sensoriais, agitação, choro, irritabilidade ou isolamento.


Não é birra. Não é “falta de costume”. Não é dificuldade cognitiva. É o sistema auditivo em sobrecarga.


Para essas crianças, períodos de festas barulhentas exigem atenção especial: criar espaços de pausa, respeitar limites, oferecer protetores auriculares quando necessário, permitir que fiquem em ambientes mais tranquilos e, principalmente, não forçá-las a se adaptar a um modelo que causa sofrimento.


Quando o problema não é o som, é o processamento


Muitas pessoas dizem: “me incomodo muito com barulho”, “fico esgotada em lugares cheios”, “não consigo me concentrar em ambientes ruidosos”. Em alguns casos, isso pode estar relacionado ao Transtorno do Processamento Auditivo Central (TPAC), uma condição em que o cérebro tem dificuldade para interpretar corretamente os sons que chegam pelos ouvidos.


Essas pessoas ouvem, mas não conseguem organizar bem o que ouvem. Sons se misturam, a atenção se perde, o esforço mental aumenta. Ambientes como festas, shows e blocos tornam-se não apenas desagradáveis, mas verdadeiramente exaustivos. Em crianças, até a escola se torna um ambiente desafiador. No caso dos adultos, podemos citar como exemplo as reuniões de equipe, onde diversas pessoas falam ao mesmo tempo.


Buscar avaliação fonoaudiológica é um passo importante quando o incômodo com sons começa a impactar a qualidade de vida, o aprendizado, o trabalho ou as relações.


Não querer Carnaval não é não querer viver


Existe uma pressão social muito forte para “aproveitar”, “curtir”, “sair”, “se jogar”. Mas saúde não é se encaixar. Saúde é se escutar.


Preferir ficar em casa, ler, ver um filme, dormir mais, estar em silêncio, caminhar cedo, viajar para um lugar tranquilo ou simplesmente não fazer nada também é forma de viver. Também é prazer. Também é bem-estar.


O problema não é gostar do Carnaval. O problema é achar que quem não gosta está errado. Em muitos casos, o problema não é o Carnaval, mas sim os ruídos que vem junto com as comemorações. Analise o quanto esses ruídos interferem em sua vida e se em situações diárias de ruído, como por exemplo durante uma aula, palestra ou reunião, há interferência em seu rendimento e humor. A questão pode estar relacionada a sensibilidade auditiva ou até mesmo ao Transtorno do Processamento Auditivo. Nesse caso, procure ajuda fonoaudiológica para que você possa aproveitar mais e melhor as situações do dia a dia. Agora se causam muita ansiedade ou questões emocionais, procurar ajuda psicológica poderá te ajudar muito. Em ambas situações, procure ajuda, sua qualidade de vida pode melhorar muito.


Respeitar seus limites é maturidade emocional


Reconhecer que o excesso de estímulos sonoros pode gerar cansaço, irritabilidade, dificuldade de concentração e até sintomas físicos é um sinal de maturidade e de cuidado com a saúde. O sistema auditivo não funciona de forma isolada: ele está diretamente ligado ao cérebro, à atenção, às emoções e à forma como nos regulamos no dia a dia


Ambientes muito ruidosos exigem um esforço constante do cérebro para filtrar sons, compreender a fala e se manter atento. Quando esse esforço é excessivo ou prolongado, o corpo responde. Surgem sinais como fadiga mental, estresse, dor de cabeça e queda no rendimento cognitivo. Respeitar os próprios limites sonoros é, portanto, um ato de autorresponsabilidade.


O silêncio não é ausência de som. É um intervalo necessário para o sistema auditivo e para o cérebro se reorganizarem. É o momento em que o corpo reduz o estado de alerta, regula emoções e recupera energia.


Nem todo mundo se sente bem em ambientes extremamente barulhentos e isso não é fraqueza, frescura ou antipatia social. Pode ser apenas uma percepção mais sensível ao som ou uma necessidade legítima de preservação do bem-estar auditivo e emocional.


Se você não gosta do Carnaval, tudo bem. Talvez você só esteja escolhendo aquilo que respeita seu cérebro, seu corpo e sua saúde.


Andréa Paz



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