Janeiro Branco: quando a saúde mental das mães atípicas adoece antes de qualquer diagnóstico
- Kelly Bessa | Assessora de Imprensa e Estrategista Digital

- 21 de jan.
- 4 min de leitura
No mês dedicado à saúde mental, especialistas alertam: o sofrimento das mães de crianças autistas não nasce da maternidade, mas da ausência de políticas públicas, rede de apoio, acesso à saúde e inclusão real.

Janeiro Branco convida o país a falar de saúde mental. Mas há um grupo que vive esse tema o ano inteiro — longe das campanhas, dos slogans e das promessas institucionais: as mães atípicas.
Os dados não deixam dúvidas: aliviar a sobrecarga dessas mulheres é uma urgência de saúde pública, de justiça social e de equidade de gênero. O adoecimento emocional que atravessa essas mães não nasce da maternidade atípica em si, mas da falta de acesso ao básico para sustentá-la.
A jornalista Débora Saueressig, mãe de um menino autista de 7 anos, resume em poucas palavras o que atravessa a saúde mental de milhares de mulheres no Brasil: “O que adoece não é o filho. É a falta de estrutura, de acesso e de escuta”.

Quando cuidar vira sobrevivência
O que começa com a busca pelo diagnóstico de um filho rapidamente se transforma em uma sequência de batalhas diárias: negativas de planos de saúde, ausência de inclusão escolar efetiva, dificuldade de acesso a terapias baseadas em evidências e um sistema público incapaz de absorver a demanda crescente.
O resultado é um cenário recorrente de estresse crônico, esgotamento físico, ansiedade e depressão materna.
“Em alguns momentos, desistir parece uma opção, tamanho o cansaço, a culpa e a solidão”, admite Débora, diagnosticada com autismo tardiamente.
O que dizem as evidências
A prevalência do autismo cresce de forma acelerada. De acordo com o CDC (Centers for Disease Control and Prevention), 1 em cada 31 crianças de 8 anos está no espectro (2025). No Brasil, o IBGE estima 2,4 milhões de pessoas diagnosticadas, o equivalente a 1,2% da população.
Pesquisas do Waisman Center, da Universidade de Wisconsin, identificaram níveis de cortisol comparáveis aos de soldados em combate em mães de pessoas autistas. Uma revisão global publicada em 2024 no Journal of Autism and Developmental Disorders mostrou que 45% das mães e cuidadoras apresentam sintomas depressivos clinicamente relevantes.
No Brasil, o sofrimento é potencializado pela fragilidade da rede de apoio. Um estudo da PLOS One (2023) revelou altos índices de ansiedade, depressão e estresse em mães de crianças com deficiência, apontando que o apoio social adequado atua como fator protetor direto da saúde mental.
Não é fragilidade individual. É adoecimento estrutural.
A psiquiatra Dra. Neusa Agne reforça que o quadro observado hoje é coletivo e estrutural — não uma falha individual.
“Quando uma mulher assume quase integralmente o cuidado de uma criança com TEA sem rede de apoio, políticas públicas ou acompanhamento psicológico para si, ela permanece em um estado contínuo de ativação. Isso se manifesta como disfunção do eixo do estresse, alterações hormonais e aumento do cortisol — que a ciência já demonstrou ser inversamente proporcional ao nível de apoio recebido”, explica.8
Quando a dor vira política pública
Antes de se tornar uma das vozes mais ativas pela inclusão de pessoas com autismo no Brasil, Sarita Melo, mãe da Elisa, hoje com 6 anos, só desejava viver uma maternidade possível.
Mas o diagnóstico da filha veio acompanhado de exclusões, negativas e despreparo institucional. A primeira escola recusou a matrícula. O plano de saúde negou as terapias.
Sarita transformou a dor em ação. Marchou até Brasília, acorrentou-se ao Supremo Tribunal Federal e ajudou a viabilizar a Lei 14.454/2022, que tornou o rol da ANS exemplificativo, garantindo cobertura ilimitada para terapias do autismo. Também colaborou com a Anvisa na automatização da liberação de medicamentos controlados.
“A gente perde tempo demais com negativas, burocracias e falsas promessas. Enquanto lutamos por acesso, o cérebro da criança perde janelas preciosas de desenvolvimento — e muitas mães adoecem no caminho”, relata.

Burnout materno tem nome, dados e gênero
Pesquisas mostram que mais de 45% das mães e cuidadoras de pessoas autistas apresentam sintomas depressivos e mais de 40% relatam ansiedade persistente. No Brasil, 64,7% das mães de crianças com TEA relatam sobrecarga intensa.
A advogada Vanessa Ziotti, autista e mãe de trigêmeos autistas, aponta que a dependência complexa ainda é tratada como um problema privado.“Enquanto o cuidado for invisibilizado e relegado às famílias — quase sempre às mulheres — continuaremos perpetuando a desigualdade mais silenciosa e estrutural que existe”, afirma.
Dados da PNAD Contínua (IBGE, 2022) mostram que mulheres brasileiras dedicam 21,3 horas semanais ao cuidado e às tarefas domésticas, quase o dobro do tempo dos homens. Entre mulheres negras, o desequilíbrio é ainda maior.
Cuidar de quem cuida também é política pública
Para especialistas e mães ouvidas nesta reportagem, Janeiro Branco precisa ir além da conscientização simbólica.
“A gente fala de inclusão, mas sem acesso integral em rede, isso não acontece. É preciso garantir terapias baseadas em evidências, acompanhamento psicológico para as mães no SUS e reconhecer o cuidado como trabalho”, defende Débora Saueressig.
Sarita reforça: “O que adoece essas mulheres não é o amor. É o peso de um sistema que insiste em nos tratar como invisíveis. Quando o acesso vem, a criança melhora — e a mãe também.”
Janeiro Branco é sobre isso: cuidar da saúde mental começa garantindo estrutura, acesso e dignidade para quem sustenta o cuidado todos os dias.
Kelly Bessa | Assessora de Imprensa e Estrategista Digital
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