O Ano só começa agora? TDAH e a retomada da rotina
- Yasmim Vieira

- há 2 dias
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Como superar a procrastinação de "início de ano" que ocorre no Brasil pós Carnaval.
No Brasil, é comum ouvir que “o ano só começa depois do Carnaval”. O início do ano costuma ser atravessado por férias, depois pela expectativa da festa e, quando março chega, muitas pessoas sentem que estão atrasadas em relação a metas, planos e objetivos. Para pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), essa sensação tende a ser ainda mais intensa e frequentemente acompanhada de culpa, frustração e autocrítica. Esse texto propõe uma reflexão sobre a chamada procrastinação de início de ano no contexto do TDAH, compreendendo-a não como falha pessoal, mas como uma expressão frequente do funcionamento neurodivergente e, a partir disso, pensar formas mais possíveis e compassivas de retomar a rotina no período pós-carnaval.

Em pessoas com TDAH, a dificuldade central geralmente não está na falta de interesse ou de esforço, mas na ativação necessária para iniciar tarefas, especialmente quando elas são abstratas, longas ou não oferecem recompensas imediatas. Alterações nas funções executivas, na percepção do tempo e nos sistemas de motivação podem fazer com que o cérebro com TDAH dependa mais de urgência, interesse ou novidade para engajar.
Por esse motivo, grandes marcos temporais, como o início do ano, a segunda-feira ou o período pós-carnaval, costumam ser utilizados como formas de “reinício”. A ideia de que “agora será diferente” pode gerar alívio momentâneo, mas também tende a criar um acúmulo de expectativas que, em muitos casos, paralisa em vez de impulsionar
No contexto cultural brasileiro, esse fenômeno é frequentemente reforçado. Janeiro é socialmente entendido como um mês improdutivo, fevereiro é marcado pelo Carnaval e, em março, instala-se a sensação de que o tempo foi desperdiçado. Para pessoas com TDAH, essa narrativa pode intensificar a percepção de fracasso, mesmo quando não houve, de fato, inatividade.
A crença de que o ano já deveria estar organizado costuma gerar impactos emocionais relevantes em pessoas com TDAH. Entre os mais comuns estão a vergonha por não ter conseguido manter rotinas, a sensação de fracasso precoce, a comparação constante com pessoas neurotípicas e a evitação de tarefas como forma de lidar com a sobrecarga emocional. Nesse cenário, dificuldades de base neurobiológica podem ser interpretadas como falhas morais. A procrastinação deixa de ser compreendida como um desafio executivo e passa a ser vivida como sinal de incompetência ou falta de comprometimento, alimentando um ciclo de autocrítica e bloqueio.
Na prática clínica e na literatura psicológica, observa-se que, para muitas pessoas com TDAH, a retomada da rotina tende a ser mais eficaz quando acontece de forma gradual, flexível e sem violência interna. Em vez de recomeços radicais, estratégias de reconstrução progressiva costumam produzir resultados mais sustentáveis. Uma mudança importante é abandonar a ideia de “ano novo, vida nova” e substituí-la por perguntas mais realistas, como: “o que é possível retomar agora?”. Rotinas não precisam nascer completas ou perfeitas, elas podem ser construídas aos poucos, com ajustes constantes ao longo do caminho.
Começar pequeno também é um ponto relevante. Para o cérebro com TDAH, reduzir a barreira de entrada pode facilitar a ativação. Dez minutos de organização, uma única tarefa por dia ou a definição de apenas um horário fixo já podem ser suficientes para iniciar um movimento de retomada. O ambiente pode funcionar como um aliado nesse processo. Pistas visuais, redução de etapas desnecessárias e uma organização voltada para facilitar o início, e não a perfeição, ajudam a diminuir o esforço cognitivo exigido para começar. Além disso, costuma ser mais útil criar marcos concretos do que esperar por datas simbólicas. Associar tarefas a eventos que já acontecem, como após o almoço, ao chegar em casa ou logo após outra atividade estabelecida, tende a ser mais eficaz do que aguardar pela “segunda-feira ideal” ou pelo “mês certo”.
O Carnaval, em si, não é o responsável pela dificuldade de retomar a rotina. Ele apenas evidencia algo que já é desafiador para muitas pessoas com TDAH: a continuidade. As interrupções tornam mais visível a fragilidade de rotinas que dependem exclusivamente de força de vontade. Para pessoas neurodivergentes, rotina não significa rigidez, mas uma estrutura flexível, ajustável, revisável e humana.
Se o seu ano está começando agora, tudo bem. Se ele começou antes e descarrilhou, isso também faz parte. Retomar a rotina com TDAH geralmente não é uma questão de determinação ou disciplina, mas de estratégia, autocompaixão e respeito ao funcionamento do próprio cérebro. Talvez o ano não comece em janeiro. Talvez ele comece toda vez que se tenta de novo, de um jeito possível.
Yasmim Vieira Psicóloga Clínica CRP 06/202107
@psi.yasmimvieira
@clinicaledesmasuarez




