O futuro do trabalho já é neurodiverso. A pergunta é: as empresas perceberam isso?
- Anna Clara Miccoli Teixeira

- há 8 horas
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Por Anna Clara Miccoli Teixeira
Por muito tempo, quando falávamos sobre diversidade nas empresas, o foco estava principalmente em gênero, cultura e diferentes trajetórias de vida. Mas existe um tipo de diversidade que ainda aparece pouco nas conversas, mesmo já estando presente em muitas equipes: a forma como as pessoas pensam, se comunicam e entendem o mundo.
Trabalhando diretamente com crianças e adolescentes autistas, algo se tornou cada vez mais óbvio para mim: essas pessoas crescem e, em algum momento, chegam ao mercado de trabalho. Elas são preparadas para esse momento ao longo de toda a vida. A grande questão é se o mercado está pronto para recebê-las.

Na prática clínica, acompanhamos o desenvolvimento de habilidades que vão muito além do contexto terapêutico. Estamos falando de aprender a lidar com frustrações, interpretar situações sociais, se comunicar de forma clara, manter o foco em atividades, pedir ajuda e trabalhar em grupo. E são exatamente essas mesmas habilidades que, mais tarde, serão exigidas no ambiente profissional.
Já vi adolescentes com TEA desenvolverem habilidades impressionantes de foco e análise, características altamente valorizadas em áreas como tecnologia, dados e processos.
Muitas vezes, aquilo que é visto como dificuldade em um contexto pode ser uma grande habilidade em outro, dependendo de como o ambiente está organizado.
Nas empresas, ainda existe uma ideia muito enraizada de como um “profissional ideal” deve agir. Espera-se boa comunicação, flexibilidade constante, facilidade para interações sociais e adaptação rápida às mudanças. Mas o que acontece quando um profissional funciona de um jeito diferente? Quando alguém se comunica de forma mais direta, tem dificuldade com jogos sociais implícitos, mas ao mesmo tempo apresenta alta concentração, atenção aos detalhes e profundidade técnica?
Nem sempre esse profissional é reconhecido pelo seu potencial. Muitas vezes, acaba sendo rotulado como “difícil”.
Talvez o desafio não seja adaptar as pessoas a um único modelo, mas começar a questionar o próprio modelo.
As empresas que já estão olhando para a neurodiversidade de forma estratégica começam a perceber que equipes mais diversas são também muito mais potentes, porque pensam diferente, resolvem problemas de formas diferentes e enxergam soluções onde antes só havia padrões.
Falar sobre o futuro do trabalho é, inevitavelmente, falar sobre diversidade. Mas talvez o próximo passo seja ampliar esse olhar, não apenas para quem as pessoas são, mas para como elas funcionam.
A neurodiversidade já está presente nas empresas, mesmo quando não é reconhecida.
A grande questão é: estamos tentando encaixar todo mundo no mesmo modelo ou estamos dispostos a construir ambientes onde diferentes formas de pensar sejam realmente valorizadas?
Anna Clara Miccoli Teixeira é psicóloga do Grupo Gaiadi (Grupo de Avaliação e Intervenção dos Atrasos do Desenvolvimento Infantil), em Ribeirão Preto/SP
@annacmiccoli



