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O LUTO PELA NORMALIDADE O PROCESSO EMOCIONAL DE ACEITAR SER DIFERENTE DEPOIS DE ANOS TENTANDO SE ENCAIXAR

  • Foto do escritor: Luti Christóforo
    Luti Christóforo
  • 10 de dez. de 2025
  • 2 min de leitura

Um dos processos mais intensos vividos por pessoas neurodivergentes é o luto pela normalidade. Esse luto não envolve a perda de alguém, mas a perda de uma ideia. A ideia de que um dia seriam iguais aos outros, de que um dia funcionariam como todo mundo, de que um dia não precisariam se esforçar tanto para existir.


A normalidade, para muitos neurodivergentes, é um ideal construído a partir da comparação constante. Desde cedo, eles percebem que precisam de mais tempo, mais energia ou mais esforço para realizar aquilo que parece fácil para os outros. Aprendem que seus jeitos de sentir e agir são considerados estranhos, exagerados ou inadequados. E começam a acreditar que, se tentarem ainda mais, talvez finalmente se encaixem.



Esse esforço contínuo cria uma esperança silenciosa. A esperança de que, com disciplina, autocontrole e força emocional, eles poderiam deixar de ser diferentes. Essa esperança, no entanto, se torna fonte de sofrimento. Porque a cada tentativa frustrada de se moldar ao padrão, o neurodivergente se sente mais distante de si mesmo.


Quando a pessoa recebe o diagnóstico ou compreende sua própria neurodivergência já na vida adulta, algo dentro dela se quebra e se reorganiza ao mesmo tempo. Ela percebe que aquele ideal de normalidade nunca foi possível. Percebe que sua vida inteira foi construída tentando alcançar um padrão que não correspondia ao seu funcionamento interno. E, diante dessa verdade, o luto começa.


O luto pela normalidade tem fases próprias.

A primeira é a negação, onde a pessoa questiona se o diagnóstico está correto ou se ela realmente é diferente.

A segunda é a raiva, que surge ao perceber o quanto sofreu tentando ser alguém que não poderia ser.

A terceira é a tristeza, acompanhada por um profundo sentimento de perda daquilo que imaginava para si mesma.

E a última é a aceitação, que permite finalmente construir uma identidade verdadeira.


No consultório, esse luto aparece em frases como eu queria ser como os outros, por que eu não consigo fazer o simples ou não era para ser tão difícil. São expressões de dor, mas também de clareza. A pessoa começa a olhar para sua história com honestidade. Vê o esforço gigante que fez para se encaixar em ambientes que nunca a acolheram. Vê a solidão emocional que carregou enquanto tentava esconder suas diferenças. Vê a força que precisou desenvolver para sobreviver.


Aceitar a neurodivergência não significa resignar-se. Significa libertar-se.

Libertar-se da autocobrança, da autocrítica, da comparação e das expectativas irreais.

Significa permitir-se existir como se é, e não como o mundo quer que seja.


A verdadeira cura acontece quando a pessoa entende que não perdeu a normalidade, porque ela nunca lhe pertenceu. Ela perdeu apenas a ilusão de que precisava ser igual para ser suficiente. E, ao perder essa ilusão, ganha algo maior. Ganha verdade. Ganha pertencimento interno. Ganha liberdade para construir uma vida que respeite seu corpo, sua mente, sua sensibilidade e seu ritmo.


O luto pela normalidade é doloroso, mas também é transformador.

É o momento em que o neurodivergente deixa de lutar contra si mesmo.

E começa a caminhar na direção de quem realmente é.



Luti Christóforo

Psicólogo clínico.

WhatsApp: (41) 99809-8887

Instagram: @luti.psicologo

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