O medo de decepcionar: quando o neurodivergente vive tentando ser suficiente
- Luti Christóforo

- há 7 dias
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Texto de Luti Christóforo - Psicólogo
O medo de decepcionar é uma das marcas emocionais mais profundas em muitas pessoas neurodivergentes. Ele não nasce do nada. Ele se constrói lentamente, ao longo de anos de tentativas de adaptação, correções constantes, olhares de reprovação, comparações silenciosas e expectativas que nunca parecem totalmente alcançáveis. Em algum momento da história emocional, a pessoa aprende que existir como é não basta. É preciso provar valor.
Esse medo não está ligado apenas ao outro. Ele se instala dentro. Passa a organizar o modo como a pessoa se enxerga, se comporta e se relaciona. Cada escolha é atravessada por uma pergunta invisível: será que agora vou decepcionar alguém? Será que estou fazendo o suficiente? Será que estou sendo bom o bastante?

Na infância, muitos neurodivergentes crescem ouvindo correções mais do que validações. Não foi por mal. Pais, professores e adultos tentam ajudar, mas acabam comunicando, sem perceber, que algo precisa ser consertado o tempo todo. A criança aprende que seu jeito espontâneo não é bem-vindo. Aprende a se ajustar, se vigiar, se moldar. E quando não consegue, sente culpa.
Com o tempo, essa culpa vira identidade. O adulto passa a viver em estado de alerta emocional. Ele tenta agradar, evitar conflitos, antecipar expectativas e minimizar qualquer possibilidade de erro. Não porque seja fraco, mas porque aprendeu que errar significava perder aceitação.
No consultório, é comum ouvir frases como eu sempre sinto que estou devendo algo, eu faço muito e ainda parece pouco, eu tenho medo de relaxar e decepcionar alguém. Essas falas revelam uma psique que se organizou em torno da ideia de que amor e aceitação precisam ser conquistados o tempo todo.
Esse padrão gera um cansaço profundo. A pessoa vive em constante esforço. Esforço para funcionar, para corresponder, para se adaptar, para não incomodar, para não falhar. E mesmo quando tudo dá certo, raramente há descanso. Porque o medo de decepcionar não permite celebrar. Ele só permite continuar tentando.
Do ponto de vista psicológico, esse medo é uma resposta adaptativa ao ambiente. Ele foi útil em algum momento. Ele protegeu a pessoa do abandono emocional. Ele ajudou a manter vínculos. Mas aquilo que um dia foi proteção, na vida adulta se transforma em prisão.
O grande sofrimento está no fato de que a pessoa passa a medir seu valor pela aprovação externa. Se é elogiada, sente alívio. Se é criticada, sente que tudo desmorona. Sua autoestima se torna frágil porque depende do olhar do outro para se sustentar.
A cura começa quando a pessoa percebe que não precisa ser suficiente para merecer existir. Ela já é suficiente por existir. Parece simples, mas para quem passou a vida tentando se provar, isso é revolucionário.
Aprender a não decepcionar o outro começa por não se decepcionar consigo mesmo. Começa por reconhecer limites sem culpa. Começa por permitir falhas sem transformar isso em identidade. Começa por entender que não é possível corresponder a todas as expectativas, porque muitas delas nunca foram realistas.
O neurodivergente não precisa ser extraordinário para ser digno.
Não precisa ser impecável para ser amado.
Não precisa ser perfeito para ser respeitado.
Quando esse entendimento se aprofunda, algo muda silenciosamente dentro. O esforço diminui. A respiração se torna mais leve. A necessidade de agradar perde força. A pessoa passa a se mover não mais por medo, mas por escolha.
O medo de decepcionar vai sendo substituído por algo muito mais saudável.
O direito de ser humano.
Com limites.
Com falhas.
Com valor.
Luti Christóforo
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