Quando descobri o autismo, descobri também uma nova forma de olhar para o outro
- Heitor Werneck

- há 1 dia
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O diagnóstico tardio de autismo me fez revisitar a própria história e compreender experiências que, durante anos, pareciam não ter explicação. Hoje, transformo parte dessas vivências em ações de solidariedade para pessoas em situação de rua e em defesa da neurodiversidade
Por Heitor Werneck

Durante muitos anos, eu não entendia por que algumas situações que pareciam simples para outras pessoas eram tão difíceis para mim. Na infância, fui chamado de difícil, birrento, estranho. Cresci tentando compreender comportamentos, sensações e maneiras de perceber o mundo que eu mesmo não sabia explicar.
O diagnóstico de autismo chegou na vida adulta, há cerca de 15 anos. Mesmo assim, levei tempo para compreender o que aquilo representava. Foi apenas mais recentemente que consegui olhar para o diagnóstico com outra perspectiva e reconhecer o autismo como parte da minha história, e não como algo que deveria esconder ou negar.
Essa descoberta também me fez revisitar a minha infância. Aos 10 anos, saí de casa e vivi em situação de rua até os 14. Conheci a fome, o frio, a violência e a sensação de invisibilidade. Aprendi muito cedo como é difícil sobreviver quando não existe uma rede de proteção.
Por isso, quando vejo alguém dormindo na calçada, não consigo simplesmente passar. Eu sei o que significa estar ali. Sei o que é precisar de comida, roupa, proteção e, principalmente, de alguém que enxergue você como pessoa.
Foi dessa experiência que nasceu uma parte importante do meu trabalho social em São Paulo. Ao longo dos anos, passei a participar e organizar ações para pessoas em situação de vulnerabilidade, com distribuição de alimentos, roupas, cobertores, produtos de higiene e outros itens básicos.
Mas, para mim, uma ação social nunca se resume a entregar uma marmita. É também conversar, ouvir, saber o nome daquela pessoa e tentar entender o que ela precisa. Muitas vezes, o que começa com uma refeição pode se transformar em um encaminhamento para um serviço, uma instituição ou uma rede de apoio.
Depois que passei a compreender melhor o meu próprio autismo, também comecei a dedicar parte da minha atuação à neurodiversidade. Passei a falar sobre diagnóstico tardio, capacitismo e sobre a necessidade de compreender que o autismo não tem um único rosto ou comportamento.
Percebo que o capacitismo ainda está muito relacionado à falta de conhecimento sobre o autismo. Também me preocupa quando vejo o tema sendo tratado de maneira oportunista, sem responsabilidade e sem o devido conhecimento. Precisamos de mais profissionais preparados e de uma rede de atendimento que compreenda as necessidades das pessoas autistas em todas as fases da vida.
A ausência de atendimento adequado para adultos autistas é uma questão que me preocupa especialmente. O diagnóstico não encerra uma jornada. Depois dele, existe uma vida inteira que precisa ser acompanhada, respeitada e compreendida. Adultos autistas também precisam de acesso a profissionais capacitados, informação e serviços que considerem suas particularidades.
Essa compreensão mudou a maneira como enxergo a mim mesmo e também a maneira como me relaciono com o outro. Percebi que muitas pessoas passam a vida sendo julgadas por comportamentos que elas mesmas não conseguem explicar. E isso pode ser ainda mais difícil quando não existe acesso a informação, diagnóstico ou acolhimento.
Por isso, acredito que inclusão e respeito precisam caminhar ao lado do esclarecimento. Não basta falar sobre inclusão. É preciso entender o que ela significa na prática e criar condições para que pessoas neurodivergentes tenham seus direitos respeitados.
A necessidade de informação e esclarecimento se torna cada vez mais urgente. Quanto mais conhecimento existe, menores são os espaços para o preconceito, o capacitismo e a desinformação. E isso vale para escolas, famílias, empresas, profissionais de saúde e para toda a sociedade.
Minha história não se resume ao autismo, nem ao período em que vivi nas ruas. Sou produtor cultural, artista e ativista. Mas essas experiências fazem parte de quem eu sou e me ensinaram algo que considero fundamental: solidariedade precisa ser prática.
Hoje, quando olho para o passado, consigo enxergar que aquelas experiências também me deram uma capacidade muito grande de reconhecer a dor de quem está à margem. O menino que um dia precisou de ajuda cresceu e decidiu transformar parte da própria história em uma ponte para ajudar outras pessoas.
Descobrir o autismo não apagou o que vivi. Pelo contrário. O diagnóstico me ajudou a compreender melhor a minha trajetória. E, ao compreender quem eu sou, encontrei também uma maneira de transformar minhas experiências em acolhimento, informação e ação para quem precisa.
Sobre o autor
Heitor Werneck é produtor cultural, artista, ativista e pessoa autista. Sua atuação envolve iniciativas sociais voltadas à população em situação de vulnerabilidade em São Paulo, incluindo a distribuição de alimentos, roupas e itens essenciais, além de ações de conscientização sobre neurodiversidade, autismo e combate ao capacitismo.



