Quando um caderno de anotações vira ferramenta de inclusão: a história por trás de "Liderança Que Faz Bem"
- David Mariano
- há 14 horas
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Nem todo livro nasce com a intenção de ser livro. O de David Mariano começou como hábito: ao longo de quatro a cinco anos coordenando grupos de trabalho na área social, ele foi registrando situações, decisões e aprendizados, sem qualquer plano editorial. O material só ganhou forma de livro quando um amigo, ao ler as anotações, enxergou ali algo maior do que Mariano via. "Liderança Que Faz Bem" é o resultado: um conteúdo construído a partir de casos reais, não de teoria de sala de aula, sobre um tema que atravessa qualquer ambiente onde existam pessoas coordenando pessoas, do terceiro setor à política, da empresa à igreja.
Por que esse livro interessa a quem discute neurodiversidade
O diferencial do projeto está no destino da receita: 100% do valor arrecadado com as vendas será direcionado, inicialmente, a duas instituições que atuam com neurodivergência, o Instituto Alice e a Associação Beneficente Esperança. Ambas trabalham com pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), TDAH, Síndrome de Down e outras condições.
O gesto ganha peso quando olhamos os números. Segundo o Censo Demográfico 2022 do IBGE, o Brasil tem 2,4 milhões de pessoas com diagnóstico de TEA, o equivalente a 1,2% da população, a primeira vez que o país teve um dado oficial sobre o tema (Canal Autismo / IBGE).
Já o TDAH, segundo revisão publicada na SciELO, tem prevalência global estimada em 8% entre crianças e adolescentes (SciELO — Saúde Pública), enquanto no Brasil, entre adultos, os números situam-se entre 2,5% e 5%, com elevada taxa de comorbidades como ansiedade e depressão (Interference Journal). A Síndrome de Down, por sua vez, atinge cerca de 1 em cada mil nascidos vivos no mundo, com aproximadamente 300 mil pessoas com a condição no Brasil, segundo dados do IBGE (SINPRO-DF).
São números que traduzem uma realidade concreta: milhões de famílias brasileiras convivem diariamente com alguma forma de neurodivergência, e boa parte delas enfrenta lacunas de diagnóstico, apoio escolar e inclusão no mercado de trabalho.
Um levantamento recente indicou, por exemplo, que apenas 5,3% das pessoas com Síndrome de Down estão inseridas no mercado de trabalho no Brasil (Tribuna do Planalto), um retrato de quanto ainda falta para a inclusão sair do discurso e virar prática.
A motivação por trás do gesto
Para David Mariano, a escolha da causa não nasceu de estratégia, mas de proximidade: ele tem uma sobrinha com Síndrome de Down, o que trouxe uma compreensão direta dos desafios, e das potências, da neurodivergência. "A ideia é vender o livro e ajudar as pessoas, ajudar instituições que atuam na área da neurodivergência", resume o autor, deixando claro que o projeto nunca teve pretensão comercial.
É esse tipo de gesto, objetivo, mensurável, sem meio-termo, que tende a se destacar em um cenário onde o discurso de responsabilidade social por vezes soa genérico. Aqui, cada exemplar vendido se traduz em recurso real revertido a instituições que já atuam, na ponta, com famílias que lidam com TEA, TDAH e Síndrome de Down todos os dias.
Fontes Censo Demográfico 2022 — IBGE (via Canal Autismo)
A epidemia de TDAH— SciELO Saúde Pública
Prevalência e impactos do TDAH na população brasileira — Interference Journal Síndrome de Down e inclusão educacional — SINPRO-DF
Síndrome de Down e mercado de trabalho — Tribuna do Planalto
@davidmariano.rio
