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Se setembro precisa nos lembrar, o que estamos esquecendo?

Foto do escritor: Bruno Luis Simão
Bruno Luis Simão
há 9 minutos
3 min de leitura

Por Bruno Luis Simão


É um paradoxo desconfortável: se precisamos de uma campanha anual para lembrar que milhões de brasileiros têm o direito de estudar, trabalhar, circular, consumir cultura e participar da vida pública em igualdade de condições, talvez o problema não esteja na falta de informação. Talvez esteja na naturalização da exclusão.



 

O Setembro Verde chega todos os anos com uma missão nobre. O mês busca ampliar o debate sobre os direitos das pessoas com deficiência e tem como marco o dia 21 de setembro, Dia Nacional de Luta da Pessoa com Deficiência. Os números ajudam a dimensionar a relevância da pauta: segundo os resultados preliminares do Censo Demográfico 2022 divulgados pelo IBGE, o Brasil possui cerca de 14,4 milhões de pessoas com deficiência, o equivalente a 7,3% da população com dois anos ou mais de idade. Esses dados não representam uma minoria invisível. Representam uma parcela significativa do país. Mas talvez a pergunta mais importante não seja quantas pessoas possuem deficiência. A pergunta é: por que ainda construímos uma sociedade que parece surpreender-se com a presença delas?

 

A discussão costuma começar pela acessibilidade física, e isso faz sentido. Calçadas irregulares, transporte inadequado, prédios sem condições de acesso e espaços públicos pouco inclusivos continuam fazendo parte da paisagem urbana brasileira. Porém, reduzir o debate a rampas e elevadores é limitar o próprio conceito de participação social. O desafio é mais profundo. Está na escola que matricula, mas nem sempre inclui. Na empresa que contrata para cumprir uma exigência legal, mas não cria condições reais para o crescimento profissional. Nos serviços que oferecem atendimento padronizado sem considerar diferentes necessidades de comunicação. Nos ambientes digitais que falam sobre inovação enquanto ignoram recursos básicos de acessibilidade.


Curiosamente, o discurso público parece avançar mais rápido do que a realidade cotidiana. Nunca se falou tanto sobre diversidade. Nunca houve tantas campanhas, seminários, compromissos institucionais e declarações de apoio. Ainda assim, a palavra inclusão frequentemente convive com obstáculos que permanecem exatamente onde sempre estiveram.

 

Talvez porque a exclusão raramente se apresente hoje de forma explícita. Ela nem sempre aparece em uma frase preconceituosa ou em uma recusa direta. Muitas vezes está embutida em decisões aparentemente neutras. Está no site que não pode ser lido por um software de leitura de tela. Está em um evento sem recursos de acessibilidade. Está na reunião em que ninguém considera formas alternativas de participação. Está no projeto arquitetônico que trata determinadas pessoas como exceção.

 

E aqui surge uma provocação necessária: quando uma cidade é inacessível, quem está sendo limitado? A pessoa com deficiência ou a sociedade que desenhou barreiras e depois as tratou como algo normal?

O capacitismo, frequentemente associado apenas a atitudes ofensivas, também se manifesta nessa lógica invisível. Ele aparece quando a sociedade considera a adaptação um favor, e não uma obrigação. Quando celebra a presença de uma pessoa com deficiência em determinado espaço como algo extraordinário, em vez de encará-la como parte natural da diversidade humana.


Nesse contexto, o Setembro Verde corre um risco que toda campanha de conscientização enfrenta: transformar-se em um exercício anual de lembrança seguido por onze meses de esquecimento. Afinal, o que acontece com essa pauta quando setembro termina? Quantas empresas, escolas, órgãos públicos e cidadãos mantêm o mesmo nível de atenção em outubro, novembro ou fevereiro?

 

Talvez o verdadeiro sucesso do Setembro Verde aconteça justamente quando ele se tornar desnecessário. Não porque os desafios tenham desaparecido, mas porque a garantia de direitos deixou de ser tratada como uma pauta especial.

 

No fim das contas, a medida de uma sociedade inclusiva não está na quantidade de campanhas que ela promove, mas na naturalidade com que permite que todas as pessoas ocupem os mesmos espaços. Se ainda precisamos de um mês para lembrar que milhões de brasileiros enfrentam barreiras para viver com autonomia e dignidade, a pergunta que permanece não é sobre elas. É sobre nós e sobre a sociedade que escolhemos construir. Será que estamos fazendo a nossa parte?



Bruno Luis Simão é licenciado em Pedagogia, Normal Superior com Habilitação em Educação Infantil, Educação Física, Artes visuais, Psicopedagogia e Educação Especial. Especialista em Psicopedagogia, Educação Especial e Inclusiva, Ludopedagogia, Psicomotricidade e desenvolvimento Humano, Neuropsicopedagogia, Transtorno do Espectro Autista e Formação Docente para EAD, e professor da Escola Superior de Educação do Centro Universitário Internacional Uninter.


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